ENTÃO NÃO ERA CRIME PÚBLICO I por Luísa Lobão Moniz

olhem para  mim

Os homens maus roubaram o segredo a um menino bom.

O homem mau era amigo do pai e amigo ficou.

Mas na vida nem todos são amigos do pai e os outros, na impotência das leis que então se vivia, ficavam-se pela indignação dos afectos merecidos e o nosso menino que não sabia de leis nem de afectos olhava mansamente para quem o tinha acarinhado no silêncio do seu sofrimento e pedia com o olhar e com o corpo magoado que não se fizesse barulho. Já tinha sofrido demasiado.

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Silenciosamente, chorava sem que ninguém visse. Nas veias, em vez de sangue, corriam-lhe a dor e as lágrimas de quem foi humilhado, magoado, silenciado como tantas outras crianças. Vivia num bairro onde vagueavam almas desfeitas por vidas desenraizadas, mergulhadas em álcool e agressividade, ninguém parava para pensar na dignidade humana, no direito de se ser feliz de vez enquanto. Nunca ouviram falar nos Direitos Humanos, nos Direitos das Crianças. Só conheciam as regras da sobrevivência fundadas em Direitos e Deveres por eles próprios criados, olho por olho, dente por dente.

Não importa o porquê, não há silêncio interior para pensar, há apenas o ruído do gesto violento porque outro não sabem.

Mas quem disse que tinha que ser assim?

Mas quem disse que toda esta vida tinha que se perpetuar de geração em geração?

Crianças, vítimas desta violência, pararam para reflectir no silêncio da sua dor, no barulho de palavras ouvidas sem sentido “ninguém manda no teu corpo”, “ o corpo é teu só lhe mexem se tu quiseres e gostares”, “quem não gosta que lhe mexam no corpo, foge, grita, faz queixa a um adulto…” palavras de uma professora indignada em 1992.

AINDA Não ERA CRIME PÚBLICO.

Estas palavras sem sentido, rompendo o silêncio do sofrimento, sobressaltam quem indignado, se ficava apenas pelo afecto merecido, escandalizam os mais moralistas, incomodam quem não quer conhecer a realidade.

São ditas com a serenidade do barulho que faz estremecer… Olhares conhecedores desta dolorosa vivência denunciam o sofrimento. Ficam boquiabertos. Não dizem nada. Ficam perturbados.

E o barulho abre brechas nesse silêncio abafado e solta palavras cheias de sentido. “Oh professora, sabe o que são crianças maltratadas… assim como eu…” (menina de oito anos, 1992)

“eh! Se digo alguma coisa o meu pai bate-me” (menino 10 anos, 1992)

“a minha mãe chora…e não faz nada…é amigo do meu pai…” (menino 1992).

O “sem sentido” das palavras ecoou durante anos no silêncio da dor e um dia rompeu, e um dia as palavras esquecidas brotaram timidamente “mas é meu pai” (F. 18 anos) e misturaram-se. O sentido das palavras aprendido na Escola, silenciosamente, com lágrimas, com o corpo tenso, brotou rasgando dolorosamente o segredo escondido “sim é meu pai…não pode fazer tudo o que quer…e eu…eu quero ter a minha vida, eh… não me esqueço daquilo… quero viver a minha vida…quero ter a minha casa…” (F.18 anos).

F. vive na casa do pai. O pai é um homem a sério e até trabalhou nos transportes públicos e o que quer é que o filho “seja um homem”, beba cerveja no café, ande “à porrada” para mostrar que ninguém o goza. Para o F. o que ele passou em criança já não foi nada, mas não esquece, o que quer é uma vida nova.

O pai fecha-lhe a porta à noite para ele aprender a ser homem e a respeitar as regras por ele impostas. E ele jovem, criança sofredora, adolescente cumpridor foi construindo a sua dignidade nas percas e sobressaltos da vida. Mas na rua não dorme, não é um “sem abrigo”, recorre à antiga professora, aos amigos, e dorme no albergue da Misericórdia…faz planos…revolta-se contra a prepotência do pai…falha…cede… com o silêncio para sempre da mãe submissa, culturalmente desfasada numa Lisboa em ritmo cabo-verdiano. (continua)

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