EDITORIAL – ANO NOVO? NOVO ANO?

Imagem1A convenção chamada tempo faz deste dia o último de um ano que para nós foi o de 2013. Os islâmicos guiam-se por outro calendário, o calendário hegírico, calendário lunar composto por doze meses de 29 ou 30 dias ao longo de um ano com 354 ou 355 dias. A contagem do tempo tem início com a Hégira, a fuga de Maomé de Meca para Medina em 16 de Julho do nosso ano de 622. O mês começa quando o crescente lunar aparece pela primeira vez após o pôr-do-sol. Tem cerca de 11 dias menos que o nosso calendário solar. Em 5 de Novembro do nosso ano de 2013, entraram os muçulmanos em 1435. Os judeus utilizam um calendário lunissolar, apoiado nos ciclos da lua, mas regularmente ajustados ao ciclo solar. Alternadamente, os anos hebraicos compõem-se de 12 e de 13 meses. Iniciada a contagem hebraica com a criação da ‘neshamá’ (alma) de Adão, o primeiro homem, no mês de Tishrei (Setembro/Outubro) de 2014 entram no ano de 5775. Na China, usa-se também um calendário lunissolar – cada ano é composto por doze lunações, cada uma com 354 dias. Para acertar o passo com o ciclo solar, são acrescentados a cada oito anos noventa dias ao calendário… Em 10 de Fevereiro de 2013, os chineses entraram no seu ano 4711… ano da Serpente. Em 31 de Janeiro de 2014, começa o ano do Cavalo…

Carl Sagan escreveu num dos seus livros que em cada ser humano existe um universo. Neste pequeno planeta perdido na imensidão do universo real, os mundos que povoam as cabeças humanas convertem-se em sistemas de convenções que regem as nossas vidas. Tudo valores inventados a que damos importância, mas que, bem vistas as coisas, de nada valem. Quando as armadas portuguesas e castelhanas arribavam a novos mundos, os marinheiros sentiam-se muito inteligentes quando os indígenas lhes davam ouro en troca de colares de vidro colorido. Os indígenas sorriam matreiramente uns para os outros -«estes papalvos, trocam coisas tão bonitas por matacões de metal sem valor». Quem tinha razão? Todos e nenhuns.

Tempo, distância, espaço, deuses, estados, fronteiras, metais preciosos, dinheiro… tudo é assim, como é, e podia ser de muitas outras maneiras. A única convenção que seria importante criar, defender e aperfeiçoar, era a do sentido da Humanidade. A que condenasse a guerra, o egoísmo, a usura… Sem necessidade de inventar deuses. Deuses que, silenciosos, inertes, deixam que toda a maldade, que todas as catástrofes, recaiam sobre os mais fracos. Deuses que apenas existem nos universos interiores de quem neles acredita e que mais não são do que a recusa  dos homens em  aceitar que as coisas são tão más como parecem ser. Uma defesa a que Freud deu um nome qualquer, criando outra inútil convenção.

Desejamos com o desenho de Dorindo Carvalho, algo que sabemos não ser possível que se cumpra  e que só seria possível se varrêssemos para fora do planeta e das nossas cabeças as velharias, o ouro, os vidros coloridos com que nos enganam e nos enganamos: que o novo ano seja um verdadeiro ano novo.

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