“VENCEREIS PERO NO CONVENCERÉIS” , FRASE DE MIGUEL UNAMUNO, O MESMO QUE ESCREVEU “PORTUGAL POVO DE SUICIDAS” por Clara Castilho

livro&livros1

Miguel de Unamuno é um dos grandes vultos da chamada «geração de 98». Autor de uma obra de grande dimensão humanística, surpreendeu tudo e todos quando, em 1936, apoiou a invasão do Estado espanhol pelo Exército de África a mando de Franco. Porém, passadas poucas semanas após o começo da guerra, com amigos a ser fuzilados, Unamuno percebeu que os «nacionalistas» não passavam de criminosos ao serviço da oligarquia cujos interesses a República lesara. Em 12 de Outubro de 1936, na qualidade de reitor da Universidade de Salamanca, na abertura solene do ano lectivo, entrou em rota de colisão com o general Millán-Astray e proferiu uma oração de sapiência, uma lição magistral, onde se integra a frase que Clara Castilho colocou em título.

Miguel-de-Unamuno

Tenho à minha frente o livro de Miguel de Unamuno, Portugal Povo de Suicidas, da editora Letra Livre. Apresentam o autor como “um dos maiscapa2 importantes pensadores espanhóis do século XX,” e o livro como “uma antologia de textos sobre a cultura portuguesa, organizada e traduzida por Rui Caeiro. No livro o autor fala sobre a literatura portuguesa, mas também sobre o regicídio, bem como sobre a derrocada da monarquia, além de abordar, de forma lúcida, as especificidades do modo de ser português”.Unamuno é classificado como um dos grandes nomes da “geração de 98” da inteligência espanhola, considerado o precursor do existencialismo em seu país. Para mim, começou por ser o autor de “A Tia Tula” que li ainda adolescente e muito me elucidou sobre certos aspectos da vida.

Neste livro, Unamuno transcreve uma longa carta recebida do seu amigo Manuel Laranjeira que, em 1912, também se viria a suicidar. Nela diz, referindo-se ao suicídio de outros escritores: “Essas estranhas figuras de trágica desesperação irrompem espontaneamente, como árvores envenenadas, do seio da Terra Portuguesa. São nossas: são portuguesas; pagaram por todos, expiaram a desgraça de todos nós. Dir-se-ia que foi toda uma raça que se suicidou”.

Já o nosso argonauta José Brandão, no blog “O estrolábio” tinha, no artigo “Histórias de suicídios famosos em Portugal”, falado desta obra.

Relata-se da carta de Manuel Laranjeira:

[…]“Em Portugal chegou-se a este princípio de filosofia desesperada o suicídio é um recurso nobre, é uma espécie de redenção da moral. Neste malfadado país, tudo o que é nobre suicida-se; tudo o que é canalha triunfa.

Chegámos a isto, amigo. Eis a nossa desgraça. Desgraça de todos nós, porque todos a sentimos pesar sobre nós, sobre o nosso espírito, sobre a nossa alma desolada e triste, como uma atmosfera de pesadelo, depressiva e má. O nosso mal é uma espécie de cansaço moral, de tédio moral, o cansaço e o tédio de todos os que se fartaram — de crer.
Crer…! Em Portugal, a única crença ainda digna de respeito é a crença na morte libertadora.
É horrível, mas é assim.

[…] Eu, por mim, não sei, não sei: em boa verdade, amigo, não sei para onde vamos. Sei que vamos mal. Para onde? Para onde nos levarem os maus ventos do destino. Para onde?

Vamos…[…]”

Esta análise pode ter tido a sua razão de ser na época em que foi escrita. Neste momento, não vejo o nosso país desta forma. Prefiro pensar, como Miguel Unamuno afirmou, tomando posição perante o fascismo que vinha vencendo em Espanha: “Venceréis pero no convenceréis”.

O inimigo agora terá outra face, mas é nisto que temos que pensar. Não os deixar vencer!

1 Comment

Leave a Reply