CONTOS & CRÓNICAS – Les misérables – conto de Catarina Pereira

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Nem três horas de viagem e estava a ponto de ter uma cãibra das unhas dos pés à raiz dos cabelos. Mal podia se mover.

Sobravam razões para exigir a poltrona do corredor; bastava falar alto; o marido detestava chamar a atenção, cederia logo. Mas teve pena das pernas dele, compridas, o espaço simplesmente ridículo. Um gesto de amor, com certeza, que ele não merecia, culpado absoluto daquela tortura.

Viajar na classe econômica. Para Paris. Fosse São Paulo ou Mato Grosso – quem dera ainda tivessem as fazendas – vá lá. Hora e meia, duas horas entalada, uma concessão possível. A noite inteira, dava vontade de chorar. E uma gana quase incontrolável de espedaçar o laptop, pouco importando se o marido, mãos nervosas no teclado, olhar fixo na tela, virasse caquinhos também.

Seus grandes negócios já haviam arrasado boa parte da fortuna – herdada por ela. O traste incompetente, aprumado na cadeira estreita, pernas encolhidas, computador equilibrado nos joelhos, só a ponta dos pés no chão feito uma mocinha antiga, não poderia reclamar de nada.

Le poulet, monsieur. Et du vin rouge, s’il vous plaît.” Ao menos não lhe tiraram o direito ao jantar. Quentinhas de alumínio, talheres de plástico, olhos injetados de irritação. Bem que tentara convencê-lo a comprar as passagens na classe executiva, onde a louça devia ser decente. Ele preferiu viajar de econômica e guardar dinheiro para o hotel. A ela restou aceitar, só trocaria o quatro estrelas de costume por um cinco estrelas. Nem fazia sentido desperdiçar a temporada anual em Paris num pardieiro qualquer.

Bom ou ruim, comeu salada, prato principal, sobre-mesa, a fatia de brie, tudo regado com duas garrafinhas de vinho, faminta após horas entre check-in, espera, embarque, longe, muito longe, das amabilidades da sala vip.

Conferiu a bolsinha transparente – outra vez plástico – distribuída logo à entrada: venda para os olhos, tampões e fones de ouvido, um lenço de papel. Nada de escova e pasta de dentes. Nem uma bala de hortelã. Incroyable! Então a proposta era que todos passassem a noite rígidos em seus assentos e ainda exalassem um bafo morceguento pela manhã. Sentiu saudade da frasqueirinha revestida de veludo bege recebida na última viagem na primeira classe, das meias macias, do pente, da escova, da pasta, tudo pequeno, delicado, cheiroso.

A fila do banheiro se encompridava pelo corredor, mas era uma delícia finalmente mexer as pernas, apesar da multidão alvoroçada e da falta de privacidade. Suspirou.

Espelho à frente, lavou a boca, examinou o rosto. Beirando os quarenta, teria muita sorte de chegar sem olheiras. Procurou na frasqueira a latinha azul com a mistura em partes iguais de Hipoglós e creme Nívea, aconselhada por uma dermatologista, no salão de beleza. Num de seus muitos acertos financeiros com o marido, havia desistido dos Lancôme e La Roche-Posay em favor dos fins de semana em Búzios. Pôs montículos do creme nas bochechas, testa e pescoço.

Espalhou-os em massagem vigorosa ao redor dos olhos e para cima, sempre para cima. Detestava aquele cheiro de bunda de bebê recém-trocado.

Ele também se sacrificava, é claro. A calvície devastava-lhe o alto da cabeça, na falta do carésimo remédio importado. Fazer o quê, não é, meu bem?

La vie, une éternelle négociation. O primeiro tranco surpreendeu-a no meio do xixi. A custo, ajeitou as roupas, abriu a porta, o sinal de retornar ao assento e apertar o cinto piscando sobre o espelho. Impossível retocar o batom. Passou, aos trambolhões, entre pessoas ainda aglomeradas à porta dos banheiros, resistentes aos apelos já impacientes dos comissários.

Despencou na poltrona, mesmo com a ajuda do marido, que pelo andar da carruagem ia passar a viagem mudo, com certeza ruminando mil maneiras de se safar das últimas besteiras na bolsa. Quase deu um tapa involuntário no sujeito mirrado que jazia recostado à janela, provavelmente sob o upgrade de um psicotrópico qualquer. Teria sido uma boa idéia tomar um Dalmadorm e apagar do Galeão ao Charles de Gaulle. Mas quem poderia adivinhar? Vista dafrente ou de cima, a classe econômica não parecia tão ruim.

O avião corcoveava. Não se lembrava de ter passado por tamanhos sobressaltos na primeira classe. Imaginação ou os lugares mais baratos eram também mais vulneráveis às inconstâncias dos ventos?

Desistiu da sociologia. Voltou a mente para as meditações das aulas de cabala e ioga, onde cuidava da ascensão espiritual, apesar da contrariedade do marido, sempre em busca de cortar gastos. Nem as almas escapavam. Em um momento de calmaria, ela se enrolou no cobertor pequeno e áspero, sem atentar para a trama grosseira em acrílico cinzento, nem vagamente o te-cido de pura lã azul a que estava habituada.

O avião agora parecia descer e subir escadarias no céu. Ou seria a entrada do inferno? O comandante anunciava em três línguas uma grande zona de turbulência. Exceto pelo gemido distante de um bebê, as talvez quatrocentas pessoas mantinham um silêncio angustiado, segurando rígidas os braços das poltronas. Como em cadeiras elétricas.

Pegou, quase por instinto, a mão do marido. Ele trançou os dedos nos dela, falou enfim, num sussurro, tudo ia acabar bem.

Se pudesse acreditar nele. Ainda que não pensasse na morte, ainda que fosse uma negação em números, a conta era assustadoramente fácil: várias toneladas, dez mil metros de altura, novecentos quilômetros por hora, atravessando um vento quase furacão.

Podia dar certo?

Lembrou-se das freiras do Sacré-Coeur de Marie. Das confissões semanais esquecidas desde a adolescência. Talvez fosse o caso – Péché avoué est à demi pardonné – de reconhecer seus erros.

Não que tivesse muitos pecados. Havia a doação para a ong da terceira idade que, há meses, ela gastava nos almoços com as amigas. Os gatos, da eletricidade, da tevê a cabo.

Propinas esparsas. Os salários atrasados das empregadas. Uma poupança, não secreta, mas convenientemente escondida no banco de Nova Iorque.

Besteirinhas. Isso era pecado só para as freiras do Sacré-Coeur. Se lessem os jornais, elas saberiam da canalha que assalta o país, essa sim merecedora da ira de Deus e do Diabo.

Persignou-se três vezes. Não percebeu o vôo suave por vários minutos. Seu corpo ainda chacoalhava em inércia e medo. Mas o comandante anunciava o fim da zona de turbulência e um resto de viagem agradável até Paris, onde o tempo estava claro e a temperatura era de refrescantes onze graus. Ela ouviu com atenção a voz segura repetir em francês, inglês e português arrevesado. Teve vontade de beijar-lhe a boca.

Os sinais de apertar os cintos se apagaram e quase ao mesmo tempo os corredores se encheram, as filas dos banheiros se refizeram.

O marido se levantou apressado, desapareceu no meio da multidão. Ao voltar, passou a mão nos cabelos dela, um ar de viu como eu estava certo no rosto. Não fosse a separação prejuízo maior, ela pediria o divórcio já. Não tinha mais forças. Esticou as pernas sob o assento da frente, dormiu, exausta.

Quando abriu os olhos, o vizinho mirrado continuava inerte ao lado da janela, o sol enchia o pequeno retângulo.

Bandeja com o café da manhã sobre a mesinha, alongou repetidamente braços e pernas, os pés trans-formados em toras dentro dos tênis Stella McCartney. Não via a hora de mergulhar na jacuzzi do Champs Elysées Plaza. Comeu apenas as fatias de frutas, tomou uma xícara de café. O marido, novamente plugado no laptop, com o mesmo irritante ar estóico, foi obrigado a desligá-lo. Estavam a poucos minutos de pousar.

O comandante anunciou “la tour Eiffel à droite”.

O avião finalmente tocou o chão e os cliques metálicos de novo se espalharam pela cabine. Ela passou por cima do marido, a primeira a pular para o corre-dor. Ajeitou cabelos, roupas, vestiu o casaco em couro vermelho.

Esperava, olhos e braços inquietos, o marido guar-dar o laptop. Talvez depois perguntasse quanto ele havia perdido em mais esta noite de trabalho. Ou não. A porta se abriu.

Precisava parar de implicar com o coitado. Ele se esforçava, apesar dos desastres. Ela sorriu.

Mal respi-rava a primeira lufada de ar de Paris e já se sentia renovada, mais tolerante, enlevada até.

O vizinho da janela se moveu devagar, emperrado pela noite inteira na mesma posição. Ela faria igual na volta. Tomaria uma droga qualquer, mesmo que para isso precisasse subornar o médico do hotel. Andou em direção à saída, enfileirada, atrás do marido. Leve, feliz. A visão da torre – as freiras do Sacré-Coeur tapassem os ouvidos – fora quase uma epifania. Sabia agora o que fazer.

Negociaria com ele esta noite, no jantar. Mais tardar, na manhã seguinte. Como não havia pensado nisso antes? Trocaria os cursos de cabala e as aulas de ioga pela passagem anual, na primeira classe, claro, para Paris.

O corpo agradeceria e o espírito, em paz, evoluiria mais depressa. Sempre poderia visitá-lo num daqueles recantos exóticos da classe econômica, oferecer-lhe uma flûte (de vidro) com champanhe, beijar-lhe a careca.

Bom que ele não se importasse com rugas no corpo e na alma.

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