Novas Viagens na Minha Terra – Série II – Capítulo 178 – por Manuela Degerine

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Mofina Mendes

Deparo com uma dezena de coca-bichinhos à solta, a tratar da vida, demoro-me a observar as cores, os códigos, a organização social, as técnicas de pesquisa, quando surge a dona, não compreendo tudo quanto diz, dá contudo para conversarmos, de súbito a senhora recomenda que espere… Ei-la com dois ovos a mão! Não há maneira nem de os deixar nem de lhos pagar: resta-me agradecer.

Prossigo portanto a caminhada – algo inquieta – com dois ovos no cimo da mochila. Sendo vendidos à meia dúzia, quantidade para mim excessiva, não os tenho comprado; estes dois constituem a exata porção. Contanto que não lance a carga, quando deles me esquecer, para cima de uma pedra, faço daqui a pouco um festim, caso contrário lavo a mochila… Começo a sentir-me cansada, portanto nem cantar nem dançar, encontro-me todavia a três horas do albergue e, como o automobilista combate a sonolência, vou mirando as vacas nos prados, as flores à beira da estrada, um trator a lavrar enquanto repito: Memento… Ova humeris sustines. O latim sublinha a gravidade e, nas dúvidas que impõe, vocabulário, conjugação, declinações: desperta-me. Ova humeris sustines… Que compreenderia um romano? Todavia ova humeris sustineo, não convém esquecê-lo. Gastar o latim – tão escasso – por dois ovos, pensarão os leitores, porém estas coca-minhocas laboram nos quintais, vi-as espertas e ruivas, os ovos foram-lhes retirados, foram-me oferecidos, o que exclui quanto não seja comê-los (com prazer): uma responsabilidade.

Passo Bom Xesús, Gueima, Vilar do Castro. Vou alternado as ultrapassagens com o espanhol e os três portugas, os quais aproveitam as casas de pasto para se sentarem; eu caminho mais devagar mas faço paragens curtas. Avisto ao longe – através da vegetação – a albufeira de uma barragem. Atravesso Campo Valado, Portelinhas, Abeleiroas… Já caminhei vinte e oito quilómetros mas sinto-me agora muito cansada.

Poiso a carga delicadamente, verifico se tudo vai bem. Num conto de Maupassant, “Toine”, um obeso acamado após um AVC, cuja mulher o obriga a chocar ovos, desempenha a função com delicadeza e sentimento… Saboreio mais uma laranja, mais um pedaço de chocolate. Vejo passar o coreano. Não traz bordão, a mochila é minúscula, caminha de mãos nos bolsos: uma figura muito singular. Creio haver percebido que trabalha na informática… Parece um pleonasmo.

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