Novas Viagens na Minha Terra – Série II – Capítulo 180 – por Manuela Degerine

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Preconceitos

Surge ao fim da tarde um sol verdadeiro por conseguinte, enquanto esperam para pagar o albergue, numerosos caminhantes se estendem em cima dos penedos: parecem lagartixas. O casal espanhol narra a última aventura, pois ela também se enterrou até aos joelhos. Reparo que a dinamarquesa, sua bronquite, seu mau cheiro, seus maços de cigarros não percorreram os trinta e quatro quilómetros; creio que me hei de consolar da perda. Neste entrementes as suíças (germanófonas) puxam-me pela manga e confiam-me o susto por os portugueses se virem instalar no mesmo quarto – são o tipo de animal que ressona! As ditas senhoras ontem avistaram-me um bilhete de identidade francês, mostraram-se muito cordiais, a seguir ouviram-me falar português, ficaram mais reservadas, quase desconfiadas, porém na presente aflição vêm pedir conselho enquanto os outros carregam as pilhas solares. Não correm o risco de passar outra noite em branco?

Explico que os matosinhenses têm aspeto rústico mas são bem educados – o essencial. Não creio que façam barulho inevitável, quanto ao resto, não costumo dormir com eles mas, que eu saiba, roncar não é exclusivo património português. Por haver passado tantas noites em barcos, comboios, autocarros, camaratas, albergues europeus, chineses, indianos, filipinos, brasileiros, argentinos, paraguaios, parece-me que o talento musical se encontra bastante bem repartido. Ter-se-iam afligido se vissem aparecer três gordos alemães?

As suíças não se atrevem a verbalizar o mais inquietante, dois dos três tugas não correspondem ao perfil do caminhante médio: fumadores, barrigudos, muito morenos e com barba escura. Isto é… As duas primeiras caraterísticas marcam uma diferença social, cultural (estereótipos Made in USA exportados para a Europa); a terceira e a quarta uma fisionomia que elas associam com a delinquência.

Todas as sociedades têm os seus terrores e os seus bodes expiatórios. Verifiquei – em particular no Caminho de Santiago entre Lisboa e o Porto – que em Portugal desconfiam de qualquer figura não conhecida; mesmo os peregrinos. Em França, na Bélgica, na Suíça, por exemplo, a desconfiança fixou-se nos imigrantes do Norte de África, aos quais os búlgaros e romenos fazem agora concorrência nos telejornais. (Todos eles morenos e com barba escura.)

Afinal as suíças não mudam de camarata e os portugueses não ressonam. Aprender até morrer, não é? Talvez as senhoras regressem a casa com menos um preconceito. Neste uniforme Caminho de Santiago – os corpos, os hábitos, os valores, as evidências, as formações, os equipamentos saíram do mesmo molde – a novidade surge todavia com mais frequência do que nas nossas rotinas quotidianas. Importa aproveitá-la…

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