Este texto está a ser escrito às 21 horas de 29 de Janeiro de 2014. No Telejornal da RTP-1, acabam de dizer : o Portugal Open em Ténis 2014 está em risco de não se realizar, pois os organizadores precisam de dois milhões de euros e não sabem como arranjar essa verba. Não vamos defender a ideia de que o dinheiro para o Portugal Open devia ser desviado para apoiar a edição de livros. São mundos diferentes. Em princípio, pelo menos…
No artigo anterior, dizia que uma verdadeira política cultural era uma missão que competia ao Estado. Porque criar hábitos de leitura nas crianças e nos jovens e alimentar esse hábito nos adultos, nem sequer pode ser considerada uma despesa – é um investimento. Lembramos a frase de Pitágoras – Educai as crianças para não terdes de punir os homens. Os hábitos de leitura podem contribuir para formar pessoas com mais qualidade e essa qualidade reflectir-se-á também na aquisição de competências. Para não falar que, no plano ético, poderá proporcionar jovens que, por exemplo, recusem os rituais de crueldade que têm sido notícia por estes dias.
Dir-se-á que não há dinheiro para coisas mais necessárias, quanto mais para livros. Falámos em dois milhões para um torneio de ténis, dinheiro que não deverá sair do erário público. Uma notícia que circulou pela rede, afirmava que a Presidência da República custa anualmente 16 milhões de euros aos cofres do Estado. Não sei se é verdade, mas mesmo que haja alguma inexactidão, percebe-se que será sempre uma verba absurda. Não se exige que a contenção do nosso PR seja decalcada do comportamento de José Mujica, o presidente do Uruguai, mas (quem sabe?) talvez fosse possível reduzir para 15 ou 14 milhões de euros…
Pois bem, torneios de ténis e presidências, poderá dizer-se, nada têm a ver com livros. Falemos de um produto cultural – o cinema. Os subsídios a fundo perdido para a realização de filmes, mesmo sendo insuficientes, andam em geral pela ordem dos milhões de euros – um, dois, cinco… não sei. E os filmes produzidos, podendo ser de uma elevada qualidade, não geram receitas que permitam ressarcir a entidade que subsidiou.
Onde quero chegar? Evidentemente que não estou a sugerir que o Open de Portugal se passe a fazer com tenistas amadores que não exijam fortunas; não pretendo que o Professor Cavaco e a esposa se alimentem de atum em conservas; muito menos que os cineastas deixem de ser apoiados… Com um milhão de euros, apoiar-se-ia a edição de mais de 500 obras que, não tendo viabilidade comercial, teria utilidade social e cultural. As pequenas tiragens seriam distribuídas por bibliotecas e o conteúdo da obra disponibilizado online. Uma comissão avaliaria os livros merecedores desse apoio…
É uma utopia, dirão. Pois se calhar é mesmo. A produção dos livros não seria cara; os direitos de autor também não. O milhão de euros seria suficiente. O pior seria a comissão avaliadora – sábios que podiam não querer ficar atrás de tenistas, presidentes ou cineastas.