Na capela da Casa-palácio onde vive, o Papa Francisco preside, cada dia da semana, à missa. E improvisa uma homilia. Umas vezes, mais inspirada, outras vezes, menos inspirada. Depende dos dias. E do Espírito que sopra no mais íntimo da sua mente-consciência. Dificilmente, será o mesmo Espírito, a mesma Ruah que habita em permanência Jesus, o filho de Maria, uma vez que o Papa é o Poder monárquico absoluto e Jesus, o filho de Maria, é a vítima mais paradigmática do Poder monárquico absoluto. E, entre os dois, há um abismo intransponível. O Papa pensa que não. Pensa, até, que só ele tem a plenitude do Espírito e por isso fala do alto da sua cátedra papal, mesmo que esta, nos dias de semana, seja o altar da capela da casa-palácio onde reside. Só que a cátedra papal é a do Poder monárquico absoluto. Por isso, o Espírito que o inspira é o do Poder monárquico absoluto, absolutamente incompatível com o Espírito, a Ruah, de Jesus, a fragilidade humana desarmada, “sarx”, em grego, o do 4.º Evangelho canónico, como oportunamente anota o Livro mais recente do Pe. Mário de Oliveira, JESUS SEGUNDO JOÃO, Seda Publicações, 2.ª edição, Janeiro 2014.
A Agência Ecclesia, propriedade da Conferência Episcopal Portuguesa (CEP), regista uma síntese da homilia que o Papa Francisco proferiu num dos dias da última semana de Janeiro 2014. A agência dá a notícia, mas não comenta a notícia. Porque é refém da CEP que, por sua vez, é refém da Nunciatura Apostólica, em Lisboa, que, por sua vez, é refém da Cúria romana e do Papa, chefe de estado, o do Vaticano. Por isso, sem liberdade de pensar, de criticar, de comentar, apenas difundir o que lhe é transmitido pelo Poder que a criou e mantém, enquanto lhe der jeito. De resto, para a agência Ecclesia, como para a CEP, tudo o que diz o Papa, seja o que for, vem de Deus, o do Papa, obviamente, o do Poder monárquico absoluto, obviamente, não o Deus de Jesus, o das vítimas do Poder, todo o Poder, religioso-eclesiástico, político, económico-financeiro. Nisto estamos, desde que há sociedade organizada pelo Poder, em lugar de ousarmos ser organismos vivos, ao modo de vasos comunicantes, de cada uma, cada um, segundo as suas capacidades, a cada uma, cada um, segundo as suas reais necessidades. Sem nenhuma espécie de intermediários, muito menos, sacerdotes e papas.
Nesta homilia, destacada pela agência Ecclesia, o Papa Francisco diz ser “absurdo” ser “cristão sem a Igreja”. E critica a “dicotomia absurda” que leva algumas pessoas [só algumas, Papa Francisco?!] a aceitar Jesus e a recusar a Igreja. E a “dicotomia absurda”, de que fala, reside no facto de que a fé cristã exige uma dimensão comunitária. Ou, por palavras dele, “O cristão não é um baptizado que recebe o Baptismo e pode seguir pelo seu caminho. O primeiro fruto do Baptismo é fazer-te pertencer à Igreja, ao povo de Deus: não se percebe um cristão sem Igreja”. Assim fala o Poder monárquico absoluto, perdão, o Papa Francisco. Tal e qual.
Quer então dizer, à luz desta homilia papal, que Jesus, o filho de Maria, que nunca foi baptizado pela Igreja católica romana e nunca foi cristão, não pertence a esta Igreja. Ora, como pertencer à Igreja católica romana, cujo chefe n.º 1 é o Papa, é igual, segundo a homilia do Papa Francisco, a integrar o povo de Deus, tão pouco Jesus pertence ao povo de Deus. A conclusão está nas premissas que o Papa Francisco formula, nesta sua homilia de Poder monárquico absoluto. Não estranhem a conclusão. É que, no universo do cristianismo, que é o do Papa Francisco, o povo de Deus é constituído apenas pelos membros da Igreja católica romana. E só pelo baptismo de água que os párocos/pastores e os bispos residenciais administram, é que se passa a pertencer a esse povo.
Não é assim para Jesus e para Deus Abba-Mãe, o de Jesus e de todos os povos das nações. Para Jesus, o povo de Deus, são todos os povos de todas as nações da terra. A Igreja-Movimento de Jesus, toda Espírito/Vento/Ruah, nenhum Poder, é humanidade-na-humanidade-e-com-a-humanidade, ao modo do fermento na massa, do sal da terra, da luz do mundo. Não tem templos nem altares. Muito menos, papas, cardeais, clérigos, sacerdotes. É humanidade com a humanidade, consciente de que todos somos gratuitamente habitados e, por isso, humanidade que se faz irmã de todos, ao jeito da parteira, não da madre Teresa de Calcutá. Porque fora da humanidade, não há povo de Deus. Há seitas de Poder que dividem a humanidade e a fracturam, para mais eficazmente dominarem, explorarem, enganarem, alienarem, oprimirem os povos das nações. Alerta, pois. Infelizmente, o Papa Francisco, porque Poder monárquico absoluto, nunca poderá ver esta simplicidade e esta ternura de Deus Abba-Mãe. Só mesmo os “pequeninos”, de que nos fala, emocionado, Jesus, o filho de Maria, assassinado pelos sacerdotes do templo e pelo império de Roma, a mesma, onde reside o Papa Francisco, sucessor de Constantino!
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