EDITORIAL – A PRIVATIZAÇÂO DE MIRÓ

Diário de Bordo - II

A questão da venda dos quadros de Miró promete ainda dar que falar, e não pelas melhores razões. Trata-se evidentemente de uma enorme estupidez, e o epíteto é leve, comparado com o que os autores desta (mais uma) triste façanha merecem. Mas também é preciso ver que o assunto já se arrasta há tempos e não tem tido a atenção devida. Sem querer sobrevalorizar a capacidade da comunicação social  em particular e da opinião pública em geral, teria sido importante abordá-lo mais vezes. Claro que há honrosas excepções. Vejam o que disse o argonauta António Sales, em 30 de Julho de 2012:

http://aviagemdosargonautas.net/wp-admin/post.php?post=1930285&action=edit&message=1

Mas é pouco, se tivermos em atenção todo o assunto. Alguns, de vistas curtas, ou desejosos de agradar a Passos/Portas, ou tudo junto, dirão: mais vale algum dinheiro, de que se os quadros continuarem por aí, à espera que algum espertalhão os desvie. É óbvio que não consideram  o que os quadros representam, nem sequer o incentivo que poderiam representar para o turismo cultural, sobre o qual em Portugal muito se fala, mas pouco se promove, preferindo-se umas campanhas pífias, tipo Allgarve (é assim que se escreve?).

A leiloeira Christie’s avaliou os quadros em 35 milhões de euros, ao que dizem as notícias. E parece muito interessada no assunto. E com esta publicidade… Mas leiam o Público em:

http://www.publico.pt/cultura/noticia/coleccao-miro-ainda-esta-em-londres-e-parvalorem-espera-contacto-da-leiloeira-1622703

Para além de alguma ansiedade sobre o destino dos quadros (não, não estamos nos tempos de Isabel, de Drake e do Conde de Essex), ficamos com a ideia de que realmente há alguém com uma ideia firme de vender os quadros. Passos Coelho insiste nisso.  No fundo, é a mesmo ideia de sempre: vender tudo o valha alguma coisa, como aqueles herdeiros ansiosos de verem livres dos trastes dos avós. Primeiro o que se sabe que vale alguma coisa. Depois vai o resto, incluindo a casa, claro está. A incultura  e a cupidez ajudam a despachar o assunto. Os habitantes da casa mais novos vão viver e trabalhar para outro lado (emigram), aos mais velhos cortam-se os víveres (as pensões) e o prazer de viver (o Miró).

Ele bem nos avisou que íamos empobrecer (quando já estava no poleiro, claro está!). Mas que íamos ficar sem casa, pelo menos ainda não o disse abertamente. Esperamos conseguir impedi-lo. E para já, seria bom impedi-lo de nos cortar o Miró. Tal como as pensões.

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