Selecção e tradução por Júlio Marques Mota
A desigualdade, a questão que caracteriza o nosso tempo
Barack Obama
PARTE III
(CONTINUAÇÃO)
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O sentimento de sabermos de que há tantas crianças a nascer na pobreza e, isto na nação mais rica da Terra, é de partir o coração. Mas a ideia de que uma criança corre o risco de nunca ter a oportunidade de escapar à situação de pobreza, por ausência de uma educação decente, cuidados de saúde [necessários aos seu desenvolvimento] ou até do apoio de uma comunidade que veja o futuro dos seus como o seu próprio futuro, é uma imagem que nos deve magoar a todos nós e nos obrigar a agir. Nós somos um país bem melhor do que este que estamos a descrever assente com factos reais.
Deixem-me repetir: As tendências combinadas de aumento da desigualdade e da diminuição da mobilidade representam uma ameaça profunda contra o sonho americano, para o nosso modo de vida e para aquilo que defendemos em todo o mundo [ou seja, a Democracia]. O que acabo de proferir, não é simplesmente uma reivindicação moral. Há consequências práticas que resultam do aumento da desigualdade e da redução na mobilidade ascendente.
Porque essas tendências são más, muito más, para a nossa economia.
Um estudo comprova que o crescimento é mais frágil e as recessões são mais frequentes nos países onde a desigualdade é maior. E isso faz sentido. Quando as famílias têm menos dinheiro para gastar, isso significa que as empresas têm menos clientes, e as famílias acumulam mais hipotecas, dívidas com os créditos e, enquanto isso, a concentração de riqueza no topo da escala, é menos provável que essa venha a ser investida no tipo de gastos generalizadas em consumo, o que impulsionaria a nossa economia, e esta concentração, juntamente com uma regulação laxista, pode contribuir para a criação de bolhas especulativas de alto risco.
A crescente desigualdade e a redução na mobilidade também são más para as nossas famílias e para a coesão social – e não apenas porque tendemos a confiar menos nas nossas instituições-, mas há estudos que nos mostram até que, na verdade, nós tendemos mesmo a confiar menos uns nos outros menos quanto há maior desigualdade. E isto tanto mais quanto mais a desigualdade estiver associada a uma menor mobilidade entre gerações. Isso significa que esta situação não é apenas temporária, que os seus efeitos duram e perduram. Cria-se assim um ciclo vicioso.
Por exemplo, no momento em que uma criança atinge os três anos de idade, se ela se encontra no seio de uma família de mais baixos rendimentos, ouve 30 milhões de palavras a menos do que uma criança de uma família abastada, o que significa que no momento em que aquela começa o seu período escolar, ela já está tem um atraso face à última e o défice existente a este nível só pode agravar-se ao longo do tempo.
Uma vez mais repito, a crescente desigualdade e a diminuição da mobilidade são factores nefastos para a nossa democracia. As pessoas comuns não podem andar a assinar cheques em massa para campanhas ou para se contratarem caros lobistas e advogados com o intuito de garantirem a aplicação de políticas que inclinem o terreno de jogo a seu favor à custa e contra todos os outros. Este facto leva a que as pessoas fiquem com a ideia de que o sistema está viciado aumentando assim o cinismo e a polarização, do mesmo modo que diminui a participação política, e esta é um requisito necessário que faz parte do nosso sistema político, da nossa Democracia.
Assim, esta é uma questão que temos de enfrentar e frontalmente.
Se de facto, a maioria dos americanos concordar que a nossa principal prioridade é a de restaurar a oportunidade e o crescimento numa ampla base para todos os americanos, a questão é então a de saber porque é que Washington tem consistentemente falhado e recusado a agir? Julgo que uma grande razão pela qual isso acontece, são os mitos que se desenvolveram em torno da questão da desigualdade.
Primeiro, há o mito de que se trata de um problema restrito, que afeta somente uma pequena parte das minorias predominantemente pobres — que não é um problema de uma ampla base social, isto é um problema dos negros ou um problema dos hispânicos ou ainda um problema dos nativos americanos.
Agora, é verdade que o legado doloroso da discriminação significa que os afro-americanos, os latinos, os nativos americanos são muito mais propensos a sofrer de falta de oportunidades, elevado desemprego, elevadas taxas de pobreza, etc. Também é verdade que as mulheres ganham menos USD 0.77 em relação a cada dólar ganho pelos homens.
Assim sendo, iremos necessitar de uma forte reaplicação das leis contra a discriminação. Vamos precisar de uma reforma na imigração que contribua para o crescimento da economia, ou seja, para que isso aconteça, tem que se assumir as pessoas na legalidade e não nas sombras da sociedade. Vamos precisar de iniciativas orientadas para colmatar essas lacunas.
Mas, aqui está um ponto muito importante. As longas mudanças na economia têm atingido todos os grupos: a classe pobre assim como a classe média; a fracção da população que vive no interior das cidades e outra que vive nas zonas rurais; homens e mulheres; e os americanos de todas as raças.
E como consequência, alguns dos modelos sociais que contribuem para a diminuição da mobilidade e que se consideravam outrora atribuídos apenas aos pobres das zonas urbanas — isso tornava-os apenas um problema particular para a zona centro da cidade, as famílias monoparentais ou pessoas perdidas nas drogas — parecem agora que os estamos a ver a crescer por todos os cantos.
Um novo estudo mostra agora que as disparidades na educação, na saúde mental, na obesidade, na ausência de pais, no isolamento face à Igreja, face aos grupos comunitários, parecem estar a crescer tanto no lote dos ricos como no dos pobres a todos os quadrantes. A diferença de notas entre as crianças de classe pobre e as que pertencem à classe rica é agora quase duas vezes, alheio ao que existe entre crianças brancas e negras. Crianças cujo os progenitores se enquadram na classe trabalhadora têm uma probabilidade 10 vezes superior em obter maus resultados do que as crianças cujo os progenitores se inserem no patamar médio-alto, pois a classe trabalhadora encontra-se com dificuldades em auferir rendimentos.
A verdade é esta: a falta de oportunidades na América agora tem tanto a ver com a situação de classe social de partida como dantes tinha a ver com a raça, e essa falta de oportunidades está a crescer. Desta forma, se assumirmos a crescente desigualdade e a enfrentarmos com o objectivo de tentar melhorar a mobilidade ascendente para todas as pessoas, temos de ultrapassar a profecia, a falsa noção de que se trata apenas de uma minoria. Temos que rejeitar políticas que caminham e sugerem que os actos praticados com o intuito de resolver a questão da desigualdade geram conflitos de uma maneira ou de outro tipo , entre os interesses merecidos de uma classe média e uns pobres considerados indignos e à procura de esmolas.
Em segundo lugar, é preciso acabar com o mito de que as metas de crescimento da economia e da redução das desigualdades estão necessariamente em conflito, quando estas deveriam, na verdade, trabalhar em conjunto. Sabemos pela nossa história que a nossa economia obtém melhores resultados, quando os frutos do crescimento são amplamente partilhados. Sabemo-lo igualmente que para além de um certo nível de desigualdade, o crescimento económico contrai-se em paralelo com o crescimento da desigualdade.
Em terceiro lugar, temo-nos que nos abstrair da crença de que o governo nada pode fazer sobre a redução das desigualdades. É verdade que o governo não pode impedir todos os efeitos adversos das mudanças tecnológicas e da concorrência global que se estão actualmente a verificar, a partir do mercado mundial, e algumas dessas forças em parte também são responsáveis e estão-nos a ajudar a crescer. E também é verdade que alguns programas no passado, como o da segurança social, antes de ser reformulados, às vezes estavam mal concebidos, criando desincentivos ao trabalho. Mas, igualmente vimos como a acção governamental repetidamente pode fazer uma diferença enorme no aparecimento de crescentes oportunidades e em colocar incentivos à classe média. Os investimentos na educação, as leis que estabelecem a negociação colectiva e a existência de um salário mínimo — tudo isto contribuiu para aumentar os padrões de vida para um impressionante número de americanos.
Da mesma forma, quando as gerações precedentes declararam que cada cidadão deste país merecia uma medida mínima de segurança — uma base abaixo da qual eles não poderiam descer — nós ajudamos milhões de americanos a viver com dignidade e concedemos a muitos mais milhões a confiança para aspirarem a um futuro melhor, assumindo o risco de uma grande ideia. Sem Segurança Social, quase metade dos idosos do nosso país estariam a viver em situação de pobreza – metade. Hoje, menos de 1 em cada 10 estão nessa situação. Antes do Medicare, apenas metade da totalidade dos idosos tinham algum tipo de seguro de saúde. Hoje, praticamente todos o têm. Isso deve-se, porque fortalecemos essa rede de Segurança Social e expandimos os crédito de imposto a favor do trabalho e da família, como o Earned Income Tax Credit, não obstante um estudo recente mostrava que a taxa de pobreza caiu de 40% desde 1960.
Estes esforços não fazem de nós apenas um país melhor, são uma afirmação de que somos um grande país.
(continua)
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Ver a Parte II deste discurso de Obama, com tradução de Júlio Marques Mota, publicada ontem em A Viagem dos Argonautas em:
A DESIGUALDADE, A QUESTÃO QUE CARACTERIZA O NOSSO TEMPO, por BARACK OBAMA

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