COMO SE MATA UM PRESIDENTE – 6 – por José Brandão

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(Continuação)

Capítulo III

 O Santo Sidónio

«O génio lusíada é mais emotivo que intelectual.

Afirma e não discute.»

Teixeira de Pascoaes, 1912.

«Era como um rei!…»

 

Não se poderá dizer que Sidónio Pais tenha iniciado o seu consulado presidencialista totalmente à margem do apoio popular, ou sequer muito afastado dos sectores tidos então como progressistas. Sidónio era, de facto, uma legítima esperança no conturbado mundo da política portuguesa e pena foi que não tivesse passado disso mesmo: de uma esperança.

Mas poderia Sidónio ter sido mais do que isso? Poderia Sidónio ser a antítese de um sebastianismo secular, quando ele aparece tal qual um desejado descoberto numa «manhã de nevoeiro»?

Sidónio tinha tudo ou, pelo menos, tinha aquilo que julgava ser tudo. Os homens da Revolução que em 1910 libertara Portugal de um regime apontado como retrógrado, obsoleto e repressivo estavam com ele desde a hora em que se mostrara necessário fazer alguma coisa.

Machado Santos, o heróico revolucionário de 5 de Outubro de 1910, justamente tido como o pai da República, José Carlos da Maia, também herói célebre da Revolução Republicana, Vasconcelos e Sá, igualmente um dos principais obreiros do 5 de Outubro de 1910 e alguns outros republicanos de primeira estirpe, davam ao movimento de Sidónio Pais uma certa credibilidade republicana e faziam do sidonismo algo em que se podia confiar à primeira vista.

Ao lado de Sidónio vieram, também, colocar-se personalidades que fariam bem as delícias de qualquer Presidente. Fernando Pessoa endeusava-o, António Sérgio acreditava nele, Basílio Teles entusiasmava-se, Rocha Martins defendia-o e outros, não menos famosos, só desejavam poder servi-lo. Estava, na verdade, rodeado ou apoiado por um lote de individualidades de ter em conta.

Em pouco tempo, Sidónio começaria a enveredar pelos caminhos do seu «desvairo messiânico» e em princípios de 1918 já se o ouvia gritar bem alto: «Viva a República Nova!»

Era a época das grandes manifestações, que perseguiam Sidónio numa loucura nunca vista.

Por todo o lado onde passava não havia memória de tão grandiosas recepções. O delírio apoderava-se dos que o aplaudiam, roçando as raias da loucura.

«Dir-se-ia que se abriram as portas de um manicómio», afirmava João Chagas, que estava longe de apoiar Sidónio.

Ao delírio esfuziante das suas viagens por terras do Norte seguiu-se a digressão pelo Sul, onde Sidónio encontrará recepções de espectacular dimensão.

Sidónio estava, agora, mais decidido do que nunca a levar por diante os seus intentos. Sentia-se já um semideus e em breve talvez pudesse ser mais do que isso!

No salão da Câmara Municipal de Lisboa exprime o seu pensamento desta maneira:

«Sidónio Pais não existe; é, se o querem, o símbolo das aspirações da Pátria.» E acrescenta: «Se o Governo não realizar esse propósito, só tenho uma coisa a fazer: é pô-lo fora das cadeiras do Poder.»

 As manifestações eram de proporções nunca vistas. Sidónio arrastava torrentes de entusiastas e poucos eram aqueles que queriam ficar em casa quando ele se fazia ver.

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