Selecção, organização e tradução por Júlio Marques Mota
Um trabalho feito especialmente a partir do texto de Max Fischer, 9 questions about Ukraine you were too embarrassed to ask, e do trabalho de LEONID PEISAKHIN, Why are people protesting in Ukraine? Providing historical context, ambos publicados no Washington Post.
Parte I
A linguagem sobre a Ucrânia divide. Fonte de dados: dois mil nacionais ucranianos têm estado a protestar desde 21 de Novembro, quando o Presidente Viktor Yanukovych rejeitou um acordo para uma maior integração com a União Europeia, em vez de estar a colocar o país mais próximo da Rússia. Eles ainda estão nas ruas em grande número e tomaram de assalto prédios do governo regional em várias partes do país. Em Kiev, a capital, há confrontos entre manifestantes e forças de segurança que se tornaram violentos, matando várias pessoas. Na terça-feira, o primeiro-ministro demitiu-se. Ninguém está completamente seguro do que vai acontecer a seguir.
O que está a acontecer na Ucrânia é realmente importante, mas também pode ser confuso e difícil de acompanhar pelas pessoas de fora e que não conhecem a história que levou até – e, em alguns aspectos cruciais, até explica – esta crise. Aqui, então, estão as mais básicas respostas às perguntas mais básicas que se possam fazer. Primeiro, um aviso: isto não é uma explicação exaustiva ou definitiva sobre a história da Ucrânia, apenas alguns antecedentes, escrita de modo a que todos nós a possamos compreender.
1. O que é Ucrânia ?
Ucrânia – não “ a Ucrânia” – – é um país da Europa Oriental, entre a Rússia e a Europa Central. É grande: semelhante em área ao Texas, mas com o dobro da sua população. A sua história remonta a milhares de anos – os primeiros cavalos domesticados vieram daqui – e há muito tempo tem sido caracterizada por intersecções entre “Oriente” e “Ocidente”. Isso tem continuado a ser assim, até a crise de hoje.
A Ucrânia tem uma longa história quanto a ter sido subjugada por potências estrangeiras. Isso é mesmo reflectido no seu nome, que muitos estudiosos acreditam significar “fronteira” e é em parte por isso mesmo que se também se chama ” a Ucrânia”. (Outros estudiosos, no entanto, acreditam que significa “pátria”.) O verdadeiro nome do país – on the border em eslavo antigo – refere-se historicamente a uma situação geográfica e não a uma etnia comum ou a uma tradição cultural. Na medida em que possa haver um tema histórico comum que define a experiência ucraniana, este é então uma divisão: entre a Comunidade polaco-lituana e Rússia em 1569-1795,entre os impérios austríaco e russo em 1795-1917 e entre o catolicismo grego e a ortodoxia russa de 1596 até o presente. A Ucrânia pode legitimamente reivindicar a associação com as principais figuras russas (por exemplo, Nikolai Gogol e Mikhail Bulgakov ambos nasceram na Ucrânia), bem como com a cultura Ocidental (por exemplo, o grande economista Joseph Schumpeter trabalhou na Universidade de Czernowitz). A Ucrânia nunca foi e ainda não é uma unidade nacional coerente com uma narrativa comum ou um conjunto de aspirações políticas mais ou menos comumente compartilhadas.
Os ucranianos só passaram a estar independentes desde 1991, quando a União Soviética entrou em colapso e se separaram. A última vez que tinha sido independente (uns poucos anos da primeira guerra mundial logo depois da Primeira Grande Guerra; antes disso, só muito brevemente, por volta dos anos de 1600 ) teve diferentes fronteiras e demografia muito diferente. Isso acaba por ser muito importante.
2. Porque é que andam tantos ucranianos a protestar ?
Os protestos começaram, principalmente na capital. Kiev, quando o presidente Yanukovych rejeitou um acordo esperado para uma maior integração económica com a União Europeia. O acordo era popular entre os ucranianos, particularmente em Kiev e em parte do país (embora não tão popular como se possa ter ouvido falar nos media: 42 a 43 % apoiam-no.
Mas isto é muito mais do que um acordo comercial. Simbolicamente, a decisão do Yanukovych era vista como significando o desejo de querer colocar a Ucrânia fora da influência política e económica da Europa e em direcção a Moscovo, que recompensaria a Ucrânia com um “estímulo” no valor de milhares de milhões de dólares e uma promessa de exportações de gás mais barato. Moscovo tinha subjugado ou governado a Ucrânia durante gerações, então pode perceber-se porque é que a situação enerva.
Mas isto é algo mais e bem mais do que apenas a geopolítica. Yanukovych e o seu governo, desde que assumiu o poder em 2010, tem praticado uma má gestão da economia e as autoridades governamentais estão a ser vistas de forma cada vez mais generalizada como sendo gente corrupta. Em 2004, houve protestos em massa contra Yanukovych quando ele ganhou as eleições presidenciais sob suspeitas generalizadas de fraude; estes protestos, o que se passou em frente das instalações da Presidência foram chamados a “Revolução Laranja” e são consideradas manifestações importantes no momento. Mas agora ele está de volta.
Os protestos na verdade têm estado a diminuir e isto até 16 de Janeiro, quando Yanukovych assinou uma “lei anti-protesto”, que também restringe profundamente a liberdade de expressão, os media, (especialmente porque os impede de criticar abertamente o governo) assim como proíbe as pessoas de conduzirem em conjunto de mais de cinco carros, mesmo usando um capacete. Os protestos saltaram imediatamente como uma espécie de vingança, e não apenas em Kiev, mas num grande número de capitais regionais, levando à ocupação de alguns edifícios que são propriedade estatal.


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