Novas Viagens na Minha Terra – Série II – Capítulo 187 – por Manuela Degerine

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No Cabo do Mundo

Finisterra concluía os rituais de purificação do Caminho. Na Idade Média a higiene não era, como para nós, o cabo dos trabalhos, os peregrinos não carregavam com mochilas pesadas, o manto servia-lhes de casaco, de cobertor, de impermeável, não tomavam duche quotidianamente, não lavavam a roupa cada dia, engordavam serenamente a bicharada, pulgas, piolhos, percevejos, pequeno risco se comparada com a peste, os assaltos, a comida estragada, as águas poluídas, por conseguinte depois de percorrerem seiscentos, mil, dois mil ou mais quilómetros a pé, consoante o lugar onde moravam, tornara-se indispensável redobrarem a purificação espiritual com este rito de purificação corporal… Em Finisterra o peregrino lavava-se nas águas salgadas, o que simbolizava um segundo batismo, vestia roupa nova e queimava a que o pecador corrompera: levara a cabo a sua transformação. Era um homem novo que regressava a casa.

No ano passado cheguei – com a mochila e a tendinite – exausta ao albergue, faltou-me força para alcançar o fim da terra, não levei a cabo a minha transformação… Vou portanto agora descobrir esta parte mítica do Caminho.

Há um farol, um marco a indicar o quilómetro 00,00, cartazes a proibir a queima de roupa, a escultura de uma bota de caminhada… Deve haver o mar, a costa, a falésia mas, entre chuva e nevoeiro: não vemos nada de nada. Afinal o Cabo Finisterra é um espaço degradado pelo turismo… A última excursão de hoje vai a partir. Mais adiante falam inglês, trazem garrafas de uísque: vieram para o pôr-do-sol, que hoje não podem ver, consolam-se com uns goles. Os meus compinchas põem-se a tirar fotografias e a enviá-las aos amigos do Facebook. Bem… Já me chega.

Este lugar tem (ao fim e ao cabo) a vulgaridade – o kitch – dos espaços turísticos. Ora o caminho que percorri de Vilarinho até aqui, uma travessia da beleza durante doze intensos dias, as cores, o silêncio, a alforria (provisória), tudo isto exacerbou uma sensibilidade que neste género de lugares sempre se sente agredida, por conseguinte despeço-me dos meus compadres, os quais continuam a receber mensagens, irão beber um copo para comemorar… Eu levei ao Cabo a obrigação de peregrina e agora regresso pelo mesmo caminho

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