POESIA AO AMANHECER – 384 – por Manuel Simões

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 DAVID DIOP

 ( 1927 – 1960)

            AQUELE QUE TUDO PERDEU

            O sol brilhava na minha cabana

            E as minhas mulheres eram belas e elegantes

            Como os palmitos na brisa da tarde.

            Os meus filhos deslizavam no grande rio

            Com a profundidade da morte

            E as minhas pirogas lutavam contra os crocodilos.

            A lua, materna, acompanhava as nossas danças

            O ritmo frenético e grave do tam-tam

            Tam-tam da alegria, tam-tam

            No meio do fogo da liberdade.

 

            Depois um dia, o Silêncio…

            Os raios do sol pareceram afogar-se

            Na minha cabana vazia de sentido.

            As minhas mulheres esmagaram as bocas vermelhas

            Noss lábios finos dos conquistadores de olhos de aço

            E os meus filhos abandonaram a plácida nudez

            Pelo uniforme de ferro e de sangue.

            A vossa voz apagou-se, de tal modo

            Os ferros da escravidão me esmagaram o coração

            Tam-tam das minhas noites, tam-tam dos meus pais.

 

            (de “Nuova Poesia Negra”, versão de MS.)

Poeta senegalês de expressão francesa, dividiu a infância entre os Camarões, o Senegal e a França. Colaborou em “Présence Africaine” com poemas que veiculam uma consciência racial aguda. Publicou “Coups de Pilon” e foi incluído na “Anthologie de la Nouvelle Poésie Nègre et Malgache”, de L. Senghor.

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