ADRIANO CORREIA DE OLIVEIRA – por Eva Cruz e Adão Cruz

ADRIANO CORREIA DE OLIVEIRA

 

No passado dia 9 de Abril, Adriano Correia de Oliveira, completaria 84 anos se a morte não o tivesse levado tão prematuramente, no dia 16 de Outubro de 1982.

No ano em que completaria 80 anos, foi lançado o livro “ADRIANO, UM CANTO EM FORMA DE ABRIL 80 ANOS”

A propósito desse lançamento, escreveu Adão Cruz no dia seguinte:

ADRIANO, UM CANTO EM FORMA DE ABRIL

Foi apresentado ontem, 21 de Julho, no bonito espaço que é o Arquivo Municipal Sophia de Mello Breyner, em Gaia, o livro comemorativo dos oitenta anos que faria Adriano Correia de Oliveira, se a morte não tivesse entrado tão cedo na sua vida. É um livro muito bonito, com a concepção gráfica de Ana Biscaia e uma bela capa de Siza Vieira. Trata-se de um livro de evocação do Adriano, com produção do Centro Adriano e da Associação de Jornalistas e Homens de Letras do Porto e faz parte de um grande número de iniciativas da Comissão Promotora, com o apoio de quase trezentas e cinquenta personalidades. Entre textos em prosa e poesia, o livro tem a mão de oitenta autores. Ilustram-no também vinte e seis fotografias cedidas por diversas pessoas que não esquecem Adriano.

A sala estava repleta. Um dos membros da Comissão apresentou os elementos da mesa: o amigo Jorge Sarabando que fez a apresentação do livro, a Senhora Vereadora da Cultura da Câmara Municipal de Gaia, o amigo Arnaldo Trindade que toda a gente conhece, fundador do Orfeu e grande promotor e divulgador das maravilhosas vozes da ápoca, como Zeca Afonso, Adriano Correia de Oliveira, José Mário Branco e outros, e o Director da Torre do Tombo que nos disse, entre muitas coisas, que os ficheiros da Pide contêm cinco milhões de fichas referentes a cidadãos vigiados e perseguidos.

Finda a apresentação, intervieram, com curtos depoimentos, alguns amigos de Adriano. Não esperava eu que me solicitassem para ler um pequeno poema que tenho no livro e que abaixo transcrevo, o que muito me honrou. Já agora gostaria de dizer que minha irmã Eva também se encontra no livro com um belo texto em prosa. Ela foi contemporânea e vizinha de Adriano nos tempos de Coimbra, tendo sido presenteada, na altura, com uma serenata em que interveio a magnífica voz de Adriano.

Um amigo e grande admirador de Adriano pegou na guitarra e encheu a sala com algumas das mais belas canções de Adriano Correia de Oliveira. Não podia haver melhor forma de terminar a sessão.

adão cruz

Nota: Este poema foi construído com versos meus e alguns títulos de canções do Adriano (a negrito).

 

PARA O ADRIANO

 

E de súbito um sino

um cravo vermelho

Raiz de vida no céu de chumbo

aberto em dia limpo e perfumado.

E a carne se fez verbo

Por aquele caminho da esperança

às portas da cidade

E o bosque se fez barco

por aquele mar de sonho

na Trova do vento que passa.

 

Todo o mel escorria por entre As mãos

e todos os frutos do Regresso

eram versos de Uma canção sem Lágrimas

na Canção da nossa tristeza.

Graças a ti cravo vermelho

que venceste a solidão

veio o tempo ao nosso encontro

e a manhã abriu o coração

na Fala do homem nascido.

 

O sol perguntou à lua

Quando A noite dos poetas se fez de estrelas

que desceram aos cantos do jardim

se eram cravos vermelhos

ou a Canção tão simples

da tua voz sempre divina

numa Cantiga de amigo.

 

O mundo tinha o sabor a maçã

não havia cárceres nem torturas

apenas o calor de uma fogueira

na praça do entusiasmo.

Os olhos de todos nós

eram cravos vermelhos

dormindo um sono de criança

entre As mãos da revolução.

 

Como hei-de amar serenamente

esta voz de Roseira brava

e os cabelos trigueiros desta seara

dourada pelo sol e pela lua

a Cantar para um pastor

a canção de Abril que encheu a rua.

 

— X —

(Texto de Eva Cruz, no livro “ADRIANO, UM CANTO EM FORMA DE ABRIL”)

TROVA DO VENTO QUE PASSA

A lareira a crepitar, a árvore de Natal ao lado a tremeluzir, e a saudosa voz de ADRIANO libertando-se de um antigo LP de vinil, a rodar no velho gira-discos Dual, trazido da Alemanha pelos amigos Margitte e Jürgen.

Trova do vento que passa…!

Deixei-me levar nas asas do vento que passa, e no infindo écran da memória vi-me a percorrer a calcetada e estreita Rua do Loureiro, na velha Alta Coimbrã, tão estreita que nela mal cabia a largura de um carro. Os peões tinham de se enfiar na ombreira das portas para lhe dar passagem. Na esquina com a Travessa da Matemática, lá estava o número 16, a casa da Dr.ª Virgínia Gersão, tia da escritora Teolinda Gersão e como ela também escritora e interventora parlamentar com trabalhos sobre o Ensino. Fora a grande paixão do Menano. Ficara solteira para criar dois sobrinhos que cedo se tornaram órfãos de pai e mãe. Recebia como hóspedes meninas universitárias. Paralela à Rua do Loureiro, na Rua da Matemática, morava o ADRIANO, no número 6, na Real República do RásTe parta. Com ele várias vezes me cruzei e lembro-me de ter votado na lista para a Associação Académica que incluía o seu nome. Ainda a Velha Academia era perto das Escadas de Minerva, iniciando-se a sessão com três pancadas de martelo. Acompanhava-me sempre a grande amiga Lídia Gama que infelizmente já partiu. Minha companheira de quarto, foi mais tarde médica pediatra no Hospital da Estefânia. Mais velha do que eu, muito com ela eu aprendi. Uma personalidade que se impunha naquela sociedade machista dos anos sessenta, em que as estudantes ficavam “queimadas” se eram vistas duas vezes na Baixa. A Lídia era um exemplo de inteligência, sabedoria, ética e estética. Uma mulata esguia, linda, de olhos amendoados, angolana, filha de pai branco da alta sociedade. Era da JUC, mais tarde do Graal, sendo através dela que conheci a engenheira Lurdes Pintassilgo.

Trova do vento que passa…!

Na Rua do Loureiro, para além da nossa casa, havia de um lado a casa mãe, onde tomávamos banho e eram servidas as refeições, e do outro lado os quartos das estudantes. Havia ainda a casa de um médico, o Dr. Castela, primo da Lídia, e a casa de um explicador de matemática de cujo nome já não me recordo. Entre os restantes havia gente humilde e pobre. O Sr. Luís sapateiro que me fazia o nó da gravata sempre que eu vestia o traje académico e a pobre Sofia, com uma ninhada de filhos de um amante, que herdaram o sobrenome do marido. No casebre do rés-do-chão lá estava sempre uma chupeta de pano atada com um cordel, e ao lado uma pequena malga com açúcar para a adoçar e calar o mais pequenito. A própria Lídia, pessoa muito respeitada, ao passar a caminho da Faculdade, se via o puto a chorar, entrava, metia a chupeta no açúcar, enfiava-lha na boca e a criança calava-se. No nosso quarto havia um gira-discos que tocava para a rua toda. Logo pela manhã, a Lídia abria a janela e punha o som no máximo. No quarto, quase não nos ouvíamos, de tão alta a música. Édith Piaf, Charles Aznavour, Gilbert Bécaud, André Claveau, Jacques Brell, Yves Montand. Canções como «La vie en rose», «Milord», «Mourrir d´Aimer», «Et maintenant», «Dominó», «La chanson des vieux amants», «Les feuilles mortes» voavam pelo ar enchendo a rua de lés-a-lés.

Trova do vento que passa…!

Na travessa da Matemática morava a Hermengarda, mesmo em frente a uma das janelas do nosso quarto, uma das conhecidas prostitutas da Alta Coimbrã. A Lídia chegou a ir a casa dela dar-lhe injecções. A Hermengarda punha um vaso à janela sempre que estava ocupada. Nas noites cálidas de Verão, quando só era possível estudar de noite, ouviam-se vozes aqui e além, sem se saber de onde, a ler e reler as velhas páginas da sebenta. A Hermengarda, de vestido de veludo preto sem mangas, saía com um cântaro de barro à cabeça a buscar água à Torre de Anto, perto do célebre Quebra Costas e dizia: – Boa noite doutor. Como ninguém lhe respondia, ela replicava:” Ai Universidade, Universidade, que educação dás tu a esta gente!”

Coimbra foi e é realmente “Uma lição de sonho e tradição…”

Trova do vento que passa…!

A lareira crepitava cheia de lume, e o disco ainda rodava como que tocado pelo vento. Ouvi então a serenata na Rua do Loureiro, tangida por um grupo de capas negras, iniciada pelo estilhaço provocado por uma pedra que alguém atirou ao lampião, ficando a rua às escuras, apenas com o luar bem aberto no céu negro. Era da praxe apagarem-se as luzes, e assim fizemos na nossa casa. Um sussurro nas escadas e um murmúrio de vozes no nosso quarto aos primeiros acordes da guitarra. Reconheceram na noite a voz do ADRIANO amparada pela guitarra do OCTÁVIO. O Octávio Sérgio, brilhante guitarrista de Zeca Afonso era amigo daquele que um dia veio a ser o meu marido. Cantaram, entre outras canções, “A Senhora do Almortão. Quando se ouviu “minha maçã camoesa criada no Paraíso, todas disseram que a serenata era para a Eva. Mais tarde vim a confirmar que sim. Um estudante algarvio, de medicina, que me perseguia quase há um ano e que muito me intrigava fora o autor da proeza. Muito alto, de olhos verdes, sempre de capa e batina, fumava cachimbo Mayflower, escrevia versos para a Via Latina e Briosa. Diziam que era do reviralho. Falava-me em cortina de ferro e eu só conhecia cortinas de pano, dizia-se ateu, e eu era menina da JUC, de comunhão diária. Ele achava-me uma criança e dizia que o atraía o meu ar angelical. Para mim, ele era o diabo em figura de gente. Anos mais tarde voltou a Coimbra, telefonou lá para casa e logo reconheci a sua voz quente e meiga. Disse-me que viera a Coimbra em romagem de saudade e que ia partir para a guerra de Angola. “Peço-lhe que me deseje boa sorte. Se morrer, lá a encontrarei nesse céu em que a Eva acredita e eu não”. Constou que mais tarde fora parar ao Tarrafal.

Trova do vento que passa…!

“…Mas há sempre uma candeia

Dentro da própria desgraça

Há sempre alguém que semeia

Canções no vento que passa.”

…e o vento passou… e com ele levou o ADRIANO, mas o vento não teve força para enfrentar a força da melodia dessa voz que nunca nos deixou.

 

 

Leave a Reply