«Era como um rei!…», dirão dele os próprios monárquicos, admirados com o seu garbo e pomposidade.
«Este homem é completíssimo. Para lhe não faltar nada, até tem o porte e a majestade de um rei» — declarará o conde de Sabugosa, ao vê-lo entrar na Sé de Lisboa, onde ia participar nas solenes exéquias por alma dos soldados portugueses mortos na Grande Guerra.
Ao redor de Sidónio Pais criavam-se mitos de toda a espécie. Apesar de ateu confesso, ele era já, para muitos, o Santo Sidónio.
Estavam longe os tempos da oração de sapiência proferida na Universidade de Coimbra em Outubro de 1908. Dessa intervenção solene de Sidónio Pais ficariam registos como o que a seguir se transcreve:
«Ciência e religião têm esferas separadas. Ambas têm um corpo de doutrinas, mas os conhecimentos científicos emanam só da razão e as verdades religiosas apoiam-se na revelação, que é uma palavra que não tem sentido em ciência.
Nestas condições a Escola, para ser livre, tem de ser neutra em matéria religiosa. É a doutrina que se contém nestas belas e insuspeitas palavras do grande Pasteur: ‘Quando entro no laboratório, deixo à porta todas as minhas crenças; quando saio, retomo-as.’
Assim o parece ter compreendido o Estado português, que não exerce influência religiosa, nem deixa exercer, na maior parte dos seus estabelecimentos de instrução.
Subsistem apenas duas excepções inexplicáveis. A primeira é na escola primária, onde se ensina ainda a doutrina cristã, mas este ensino não é obrigatório para os alunos cujos pais pertençam a outras religiões. A segunda é na Universidade de Coimbra.
Refiro-me, senhores, às obrigações de carácter religioso que são impostas aos alunos e professores da Universidade e a esta mistura, do serviço de Deus e do serviço de Minerva, que me deixa perplexo sobre se foi a Escola que se instalou na Igreja ou se foi a Igreja que invadiu a Escola.
É ver no Anuário, publicação oficial, o calendário eclesiástico académico por que começa, onde se detalham e distribuem ao mesmo tempo lições e missas, festas e feriados, a cor dos paramentos, as insígnias dos professores, as horas das aulas e as horas das rezas.
Todas as festas académicas são conjugadas com solenidades religiosas.
Poderá haver alguma festa de capela que não tenha o carácter académico, mas todas as funções académicas têm uma feição religiosa.
Na aula subsiste o púlpito, no exame a oração, nos graus a bênção e a missa.
Obrigam-se os estudantes ao juramento religioso na sua primeira matrícula; os professores todos os anos neste dia.
Antes do exame o aluno reza uma oração latina em que invoca auxílio da divindade.
O grau de bacharel é imposto em nome do Padre, do Filho e do Espírito Santo.
O grau de licenciado é conferido na capela, e o de doutor é precedido de missa, e tem um cerimonial que é um verdadeiro rito.»
E, continuando na sua exposição, Sidónio Pais haveria ainda dizer o seguinte:
«O simples enunciado destas práticas mostra o seu absurdo. Quem hoje teria força para introduzir em qualquer escola tal regime?
E, todavia, ele mantém-se na Universidade pela força da tradição e o seu enraizamento é tão profundo que é considerado arrojo falar em público nestes assuntos.
Enumerei só aquelas disposições que têm um carácter reaccionário, restritivo da liberdade de pensar, mas outras velharias se conservam, que chocam pela sua inadaptação à vida moderna.
Sirva de exemplo o traje clerical de estudantes e lentes, cuja supressão há tanto tempo debalde se reclama.»