Lá vai o meu amigo Força Bruta no fundo do recreio, a virar à direita. Atravessa o arco que, no alto, liga o lado esquerdo da ruazinha à ala profana do Mosteiro. E digo profana porque estou a falar dos dois últimos andares cedidos pela Igreja ao Ministério da Educação para ali funcionar o Liceu Gil Vicente. Cerca de quarenta salas de aula, todas viradas ao Mar da Palha, Arrábida e Palmela esfumadas lá ao longe. Fragatas e vapores a cruzar o Tejo para cativar a atenção da rapaziada. Aqui ninguém liga para a ladainha dos professores, aqui o azul abafou de vez o realejo…
Na segunda quinzena de Janeiro de 43, no intervalo entre duas aulas, em pleno recreio o Força Bruta localiza-me e puxa-me pelo braço.
– Então, ó calouro? Já descobriste os mandões?
– Já! São os professores.
– Porquê?
– Porque nos obrigam a empinar a matéria e se não a recitarmos como foi escrita, logo saltam maus e medíocres que nos mordem e atacam, ai de nós… Realmente não tenho jeito para grafonola.
– E são assim todos os professores?
– Escapam dois: o Guerra, da Matemática, e o Garcia, de Português. O Guerra porque nos ensina a brincar com os números e é muito giro brincar com números.
– Estou a ver. E o Garcia ensina-vos a brincar com as palavras, não é?
– É isso mesmo, grande Garcia! Viva o Guerra, viva o Garcia e os outros que morram todos!…


Brilhante Conto, Fernando. Reflecte bem a diferença entre os professores que sabem estimular as mentes jovens dos seus alunos e os que se submetem apenas à ditadura curricular programática, anualmente revista e modificada para ser cada vez mais insípida e desinteressante.