POESIA AO AMANHECER – 385 – por Manuel Simões

 poesiaamanhecer

                                   EDOUARD GLISSANT

                                          ( 1928 – 2011)

            ÁFRICA (fragmento)

            Oho, pois, ou solta te sacodes

            Enfim conheço a criança que geme em ti

            Reconheci o homem que te fez zarpar

            Aos seus flancos ornada de mar avança a Africana

            Quem ousa chamá-la, ela responde, vê a rainha

 

            Oho Serva por muito tempo foste exílio

            E desejo magnífico, mas desejo ausência e voto

            Como um sonho onde era a rainha mas não a realeza

            E o homem dormente chora, aos seus pés o sol da tarde

            Tece a morte e a árvore nua não dá fruto nem repouso.

 

            (…)

            Exaltar o aroma, gabar o gesto, medir a ira

            Nem ostentar o esplendor dos teus cumes me proponho

            Nem referir os indícios que te fazem faustoso cortejo

            Em mim não há memória deixada pelos teus bosques

            Nem nos olhos o teu sal (senão o sal que sonhei).

            …………………………………………………..

            (de “Le Sel Noir”, versão de MS.)

Poeta e romancista da Martinica, de expressão francesa. Estudou em Paris. A sua poesia retoma as premissas do poema “épico popular” com ritmos da sua língua nativa, sem esquecer os clássicos da literatura de adopção. Esta composição faz parte de “Le Sel Noir” (1960), que assume o valor de sal novo, “o sabor revelado”. Da sua extensa obra poética: “La Terre inquiètée” (1955), “Poétique de la Relation” (1990), “Le monde incréé” (2000).

Leave a Reply