Novas Viagens na Minha Terra – Série II – Capítulo 193 – por Manuela Degerine

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Ordem e progresso

– Vais almoçar agora?

– Não tens fome?…

– Eu trago comida: paro em qualquer lado.

– Também trouxe!

Pagaria caro para ver a cara que naquele instante fiz. Apanhada na minha própria ratoeira, vou abancar numa zona de piquenique. Franz tira triunfalmente da mochila as embalagens, numa o pão de forma, na outra o fiambre, junta ao lado a lata de cerveja, a banana do caminhante, uma, duas, três, quatro em fila, pega num canivete com vinte ferramentas, abre as embalagens sem estragar o alinhamento, junta o branco químico com o químico cor-de-rosa, qual terá a maior lista de ingredientes, that is the question… Uma comida à frente da qual posso sentir fome – mas apetite: nunca. E que mesmo com fome me recuso a ingerir. (Sinto-me aliás tão desiludida, tão desgostosa, tão desanimada que nem um quarto de metade da minha salada consigo comer.)

Ouvirei “ainda não choveu” durante mais dezasseis quilómetros? Mais quatro horas? Estragar-me-á o último dia de caminhada? Esta paisagem? A chegada a Muxia? Seguir-me-á até à Senhora da Barca? Ouvi-lo-ei no beliche ao lado do meu? (Pouco importa quem dorme na camarata porém – neste momento – a perspetiva desespera-me.)

Qualquer mulher sabe dizer “não” portanto, quando Franz se empanturrou com as sandes poisadas no guardanapo, umas por cima das outras, entre as embalagens e a lata de cerveja, ordem cronológica que a princípio me escapou, quando bebeu a última gota e voltou a depor o recipiente, quando acertou a casca da banana com a lata da cerveja, exponho que quero caminhar sozinha, por consequência pode seguir em frente: demoro-me aqui mais um bocado. Ele transferia o lixo para um saco, que larga e alinha com a mochila. Volta a sentar-se. E sorri. Tenho toda a razão: é o último dia de caminhada, não há pressa nenhuma. Variante austríaca da esperteza saloia? Ou nada percebeu? Prefiro não pôr a mesa em pratos limpos. Ele traz meio quilo de ferramentas, talvez me ache por aqui desarrumada, inclua a dívida portuguesa e o aquecimento global nas consequências desta desordem. Ora bem… Antes de ser posta na linha ainda me resta a imaginação: aquilo a que os misóginos chamam “manha”.

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