No meio da bombarda sidonista não escapam sequer as tripulações de outros navios surtos no Tejo, que, tomadas de pânico se atiram também para os salva-vidas, que a artilharia de Sidónio flagela sem piedade.
Esta demonstração sanguinária de Sidónio Pais é logo transformada, pela propaganda oficial, num acto de grande bravura do Presidente e passará a ser constantemente apregoada aos sete ventos pelos arautos da sua figura.
Afinal, poucos sabiam que o Vasco da Gama era, na altura, um navio fácil de combater. Estava em reparação na doca da Parceria Lisbonense e só a muito custo se conseguiu trazê-lo para o lugar das Bailadeiras, a leste do pontal de Cacilhas, frente ao Terreiro do Paço. As suas peças de 47 milímetros eram as únicas capazes de fazer fogo, já que para as outras não havia sequer munições a bordo.
Pelo menos 242 marinheiros vão parar a Caxias e só voltarão a entrar num navio quando Sidónio decide enviá-los para África, mais como desterrados do que como combatentes.
Pereira dos Santos, um chefe da Polícia daquele tempo, conta, no livro das suas Memórias, que Machado Santos, então ministro do Interior, o mandara chamar para que fossem arranjadas as coisas de forma a, pouco a pouco, se restituir os marinheiros à liberdade.
Fala em 460 marinheiros presos e alega ter solto alguns que se encontravam detidos na cidadela de Cascais. Por este trabalho não esconde ter recebido uma recompensa de 800$00, que o ministro do Interior lhe envia como prémio.
Pouco se sabe da credibilidade das Memórias deste polícia, contudo, Machado Santos não seria daqueles que se mostrariam mais indiferentes perante a escalada da repressão sidonista.
Alguns, menos avaros em prodigalizar as «boas obras» de Sidónio Pais, afirmam, à boca cheia, que o Presidente foi um mãos largas na libertação dos presos políticos.
A localização, perto da Rotunda, da Cadeia Penitenciária de Lisboa, permitiu que Sidónio satisfizesse, nos primeiros dias do seu golpe, uns pedidos da delegação operária enviada pela central sindical UON. Nesta atitude de Sidónio Pais, que visava, unicamente, reforçar o apoio da central sindical, querem, ainda hoje, alguns divulgadores da obra sidoniana encontrar o sentimento de bem-fazer do Presidente, que até libertou presos políticos!
Na verdade, não é difícil averiguar que parte considerável dos libertados pelo sidonismo pouco ou nada tinha a ver com questões políticas.
Salvo os detidos por participação na revolta de Tomar em Dezembro de 1916, entre eles Machado Santos, e que um decreto manda pôr imediatamente em liberdade, grande parte dos denominados presos políticos soltos pelo golpe de 5 de Dezembro são reclusos de delito comum, alguns dos quais implicados em casos de homicídio, como Artur Bento de Sousa e Ricardo Pereira, envolvidos no célebre crime de assassínio, do proprietário do talho Porfírio, na Praça do Brasil, e que se encontravam no Limoeiro a cumprir a pena a que foram condenados.
Uma das libertações que maior brado provocou nesta altura foi a do trabalhador rural José Gonçalves Tormenta, que na Penitenciária cumpria pena como autor da morte, à machadada, do administrador do concelho da Moita, Costa Cabedo, por ocasião de uma greve tumultuosa.
As libertações a esmo que as novas autoridades sidonistas desencadeiam nos primeiros dias da sua governança não significam rigorosamente qualquer gesto de justiça ou de humanidade. Por isso, não é de estranhar que, passadas poucas semanas, as prisões estivessem mais cheias do que nunca e que a elas voltassem muitos dos anteriormente libertados, entre eles o famoso Gonçalves Tormenta.
Uma das primeiras preocupações da Junta Revolucionária presidida por Sidónio Pais foi a ocupação imediata do Governo Civil e das instalações da Polícia Cívica. Uma força comandada por Eusébio Tamagnini e Costa Ferreira fora incumbida dessa missão logo nos primeiros dias do golpe sidonista. Mal chegou ao seu novo «local de trabalho», esta força militar arranjou rapidamente ocupação, para os lados do Cais do Sodré, no Hotel Central, onde faz algumas prisões de oficiais da Carregueira, denunciados como democráticos.
Para chefe da polícia de Lisboa era escolhido o antigo sargento da Revolução de 1910, Lobo Pimentel, que Machado Santos tinha feito capitão. No Porto, o mesmo cargo vai parar às mãos de um conhecido monárquico, o capitão do Exército Sollari Allegro, que em breve se tornaria num dos maiores facínoras e torcionários da repressão sidonista.
Sidónio não queria deixar dúvidas sobre a forma como pensava governar o País.
Um decreto, publicado no Diário do Governo de 28 de Dezembro de 1917, trata de coarctar todas as possibilidades de qualquer resistência armada ao novo regime.
Nele, «todos os portadores de armas, inclusive os que dispõem de licença de uso e porte, são intimados a entregá-las, no prazo de 10 dias, às autoridades policiais do respectivo concelho. Igualmente fica rigorosamente proibido aos armeiros vender munições para armas de defesa, sem uma licença especial passada pelos comandantes e comissários concelhios da polícia cívica».
Ao mesmo tempo, Sidónio Pais armava a sua Polícia até aos dentes, preparando-a, com uma instrução militar adequada, para as exigências da nova dinâmica repressiva.
Deu-lhe novo material bélico para as necessidades da sua função repressiva, passando os quartos de policiamento a serem feitos por guardas de carabinas e cartuchame, num ar marcial que deixa quase tudo apavorado à sua passagem.
Aos guardas que faziam o giro nas ruas, de espingarda em bandoleira, passou o povo a chamar os «gatos de rabo alçado», porque era essa a ideia com que se ficava quando a sua sombra se projectava.
Um decreto de 21 de Dezembro de 1917 reforçara já a verba e os efectivos da Polícia Preventiva. Porém, durante os meses de Março, Abril e Maio de 1918 outros decretos voltam a ser publicados, com o fim de dar maior força à Polícia política do sidonismo. Um deles, o 4/138, de 24 de Abril, vem aumentar a verba disponível para esta Polícia em cerca de oito vezes mais, seguindo-se outros concedendo créditos extra na ordem das várias dezenas de contos, para cobertura das despesas necessárias ao funcionamento do aparelho repressivo sidonista.
Tomava corpo a verdadeira base de apoio de qualquer regime despótico. O absolutismo sidonista começava a mostrar as garras.
— «Ai daquele que levantar um dedo ameaçador!» — diz Sidónio Pais, no quartel da Guarda Republicana, do Porto, no dia 12 de Janeiro de 1918.