EU SÓ EXISTO SE O OUTRO EXISTIR por Luísa Lobão Moniz

olhem para  mim

Quem andar na rua, nos transportes públicos e reparar nos comportamentos, nas atitudes das pessoas com quem nos cruzamos, ficamos um pouco perplexos.

Centenas de pessoas de todas as idades, de todas as origens, de todas as classes sociais andam com o telemóvel na mão a mandar mensagens, a falar, a jogar, a tirar fotografias… a diferença é que algumas falam directamente do telemóvel enquanto muitas falam através de um pequeníssimo microfone e usam uns phones também pequenos. Falam, discutem, combinam encontros, fazem intrigas, falam de algo relacionado com o emprego, tomam decisões relativamente a negócios. Ouvem sempre música e quantas vezes andam com a cabeça baixa

Os estrangeiros residentes em Portugal falam com as suas famílias em diferentes maternas.

O que significa este quadro de pessoas que anda na rua e nos transportes colectivos?

Faz-me confusão porque ninguém olha para os outros…

Neste caso não podemos dizer que é “esta geração” porque também se vêem pessoas de outras gerações, apesar de, por vezes, terem mais dificuldade em utilizar o telemóvel.

Quais as consequências deste hábito?

Antes deste fenómeno do telemóvel se se combinava uma hora e um lugar para nos encontrarmos com alguém sabíamos que o encontro ia acontecer, hoje a cinco minutos do encontro recebemos um telefonema ou uma mensagem a dizer que não pode ir ao encontro.

Quantas vezes se ouve, como resposta, “estou no Saldanha”, quando está em Alvalade.

Tiram fotografias a si próprios, quase sempre a fazer caretas.

Há quem tenha fotografias para identificar quem faz o telefonema, outras põem uma música (o choro de um bebe, que incomoda, um assobio a chamar um táxi…..)

Parte das suas vidas íntimas são ouvidas nos autocarros, namorados que se zangam e dizem tudo o que lhes passa pela cabeça para acusar o outro de infiel.

A sociedade está partida, está desagregada, o Outro,  que é tão importante para a saúde de uma democracia e das pessoas não existe. Eu só existo se o outro existir, eu só falo se tiver quem me oiça.

A nossa vida está a ficar nebulada por tanta coisa que nos incomoda que já não queremos saber, já não queremos ouvir.

Esta semana um menino de dez anos numa escola do 1º ciclo, perguntou: ”oh professora porque é que tudo tem que ser mau, durante todo o dia?

Para esta pergunta é difícil encontrar uma resposta.”

As famílias que ainda mantêm o hábito de tomarem a refeição com todos os elementos da família, deparam-se com os filhos a mandarem mensagens pelo telemóvel, mesmo às escondidas, de baixo da mesa, como se ninguém visse. Ver vêem, mas muitos já desistiram de dizer qualquer coisa.

Os pais comem à pressa para irem trabalhar ou para verem a telenovela que os faz evadirem-se das preocupações da vida. É este o retracto das famílias? Queria tanto acreditar que não.

Hoje entrei numa papelaria pequena que me pareceu muito “de bairro”. Um senhor dizia ao dono da papelaria “estou triste, sabes, o meu filho imigrou para onde eu imigrei quando era novo. Agora estou cá e ele lá”. Ao que o outro respondeu “ eles podem ser malandros, mas são mais letrados do que nós, andamos a gastar dinheiro para eles tirarem um curso e depois eles vão enriquecer outros países…”

São assim as pessoas que andam na rua e nos transportes públicos.

São assim as pessoas que não se revoltam contra esta brutal autoridade, contra “ A instalação do medo” *

*”A Instalação do medo” de Rui Zink, editado pela Teodolito.
“Quer melhor prova de quão o medo é um veículo maravilhoso, um turbo, uma máquina perfeita que não precisa de outro combustível senão a humanidade mesma” pág 137

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