Novas Viagens na Minha Terra – Série II – Capítulo 195 – por Manuela Degerine

Imagem1

A barca de pedra

O alberguista é um jovem simpático que a cada peregrino entrega um mapa onde marca o melhor circuito para ir ao santuário, todas as outras capelas, as melhores tascas, as melhores praias, os miradouros para o pôr-do-sol… Resultado: a bicha serpenteia pelo átrio. Franz entra sem mochila e sem me reconhecer: dorme num albergue privado mas vem buscar o certificado “Muxia, fin da Ruta Xacobea”. O nosso último diploma. O qual cita Valfrido Estrabão, “In Mari Gallaico Arotrebarum apparuit B. V. Maria B. Jocobo in cymba lapidea”: no mar galego dos Ártabros apareceu a Santa Virgem Maria a Santiago na barca de pedra. Um pedaço de latim medieval como recompensa… O que muito me agrada.

Costumo respeitar os outros, mesmo os importunos (talvez não devesse conduzir a virtude a tal extremo), o austríaco revelou-se honesto, portanto explico que me apetecia – como lhe disse – caminhar sozinha nos últimos quilómetros do último dia. Os leitores não acham a razão suficiente? Pois este homem novo, que na Compostela recebeu o perdão de todos os pecados de simetria, mostra-se aqui inclemente: não me vê e não me ouve. Também nem tanto ao mar nem tanto ao cabo. Na verdade… A justificação, sem ser falsa, está incompleta; e o que calei não lhe agrada muito. Porém tal sanha dá-me jeito, já que conclui a peripécia.

Sinto uma fome de ganso logo, após o alimento celeste, dedico-me ao terrestre: faço arroz de grelos. Os portugas clamam que cheira bem mas não são servidos: querem substância carnívora (fome de lobo ibérico). Acabo de lavar a loiça quando, depois de atender toda a gente, o alberguista vem atraído pelos aromas… Tarde demais: bebemos chá. A seguir vou para o pátio lavar a roupa, a terra argilosa colou-se às botas e às polainas, porém ele empresta-me uma escova: consigo limpá-las. Por fim subimos ao terraço para olhar a barca de pedra que é Muxia. Sinto a melancolia do fim… Mesmo as tarefas obrigatórias, duche, jantar, lavagem que alguns dias, com o cansaço, me pareceram pesadas, que tantas vezes aqui referi como parte irredutível da caminhada, me dão hoje este prazer saudoso. Em casa tornar-se-ão ocupações triviais; aqui nunca o foram. (Uma prenda que o Caminho de Santiago nos faz é esta revolução de todas as hierarquias.)

Leave a Reply