COMO SE MATA UM PRESIDENTE – 16- por José Brandão

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O sidonismo estava já a rebentar pelas costuras, que nunca cosera suficientemente.

Os escândalos rebentavam a cada momento pelos corredores do presidencialismo sidonista.

Xavier Esteves, o homem que Sidónio tinha escolhido para presidir ao Directório do seu partido e para gerir a pasta das Finanças do seu segundo Governo, estava envolvido num dos maiores escândalos financeiros dos últimos tempos. Era acusado de ter conduzido o Estado português para um negócio de implicações gravosas para o Tesouro Público.

Comprara, em nome do Governo, 35 500 das 66 659 acções dos Caminhos-de-Ferro Portugueses, por um preço de 90 mil réis cada uma, quando a sua cotação na Bolsa não passava de 50 mil réis.

Por esta altura, Machado dos Santos entrava abertamente na contestação ao sidonismo. A excessiva abertura que Sidónio estava a conceder aos monárquicos levava o promotor da República a ficar preocupado.

Ultimamente, defendia a opinião de que era necessário estabelecer urgentemente relações com os verdadeiros republicanos.

Vasconcelos e Sá acusava-o, então, de estar a querer pactuar com o regime que o havia levado à prisão em tempos atrás.

«Sim, senhor! Estou pronto ainda a pactuar com ele; eu que fui preso… O senhor é que não está, apesar de nunca ter conseguido que o prendessem!», responderá Machado Santos.

O homem da República já não podia suportar mais o que se estava a passar. Lamentava-se das ingerências do Conselho Económico, organismo todo-poderoso que Sidónio criara para contento de meia dúzia de super-ricaços, entre os quais se contavam o industrial Alfredo da Silva, o poderoso lavrador António Cidrais, o visconde Ferreira Lima e o antigo ministro da Fazenda do último Governo monárquico, Anselmo de Andrade.

Machado Santos desligar-se-á de tudo o que o prende ao Governo sidonista e abandonará, até, o partido de Sidónio, recolhendo-se a uma pequena casa que conseguira para os lados do Estoril.

Estávamos, então, em Julho de 1918. Quando o Verão se fazia sentir na tranquilidade dos seus dias, Sidónio estava intranquilo na sua aventura. Ao fim e ao cabo, talvez a quisesse republicana, mas, na verdade, só os monárquicos a apoiavam. Estava rodeado de monárquicos por todos os lados e já poucos eram os republicanos que se queriam ver com ele.

José Carlos da Maia, republicano da primeira hora, abandonara a pasta da Marinha. Desgostoso com determinados aspectos da política seguida pela nova situação que ele ajudara a fundar, mas que não via levar o caminho que sonhara, escrevera uma carta a Sidónio, pedindo que o dispensasse, e afastou-se.

Para o seu lugar entraria um monárquico que publicamente declarava nunca vir a abdicar destas convicções. Chamava-se João de Canto e Castro Silva Antunes e seria Presidente da República dois dias depois de Sidónio Pais ser assassinado.

Mas não era só Canto e Castro que fazia o sidonismo defumar a realeza.

Da pasta da Guerra tinha saído Vasconcelos e Sá, outro republicano histórico, para dar entrada ao tenente-coronel de Cavalaria, Álvaro César de Mendonça, filho de um ajudante do rei D. Carlos e partidário declarado do antigo regime. Igual filiação política caracterizava o secretário de Estado do Comércio, Azevedo Neves, professor da Faculdade de Medicina de Lisboa, e Fernando de Oliveira, que mantinha a pasta da Agricultura.

O rol dos monárquicos ocupando altos cargos no aparelho de Estado sidonista era, de facto, impressionante.

Alfredo Pimenta, ex-anarquista, ex-republicano, ex-evolucionista, virado monárquico ao tempo da ditadura de Pimenta de Castro, podia vangloriar-se, dizendo, sem receio de ser desmentido: «Isto que está, já não é República, não sendo ainda Monarquia. Já não é República, porque lhe falta Afonso Costa. Ainda não é Monarquia, porque lhe falta o rei.» (4)

O Presidencialismo estava a sair caro a Sidónio Pais e à República que o fizera Presidente.

É ainda o mesmo Alfredo Pimenta quem, a propósito da nova situação criada pelo sidonismo, diz o seguinte:

«Quero acreditar que estejamos numa nova República e, pela minha parte, confesso que contra esta nova República não senti ainda a mais pequena animosidade ou oposição.

Há quem se queixe. […] Eu aplaudo.» (5)

Os monárquicos, como era de esperar, inclinar-se-iam para a posição que lhes parecesse mais anti-republicana e essa era, para eles, a defesa pública do presidencialismo.

Na conferência realizada no Salão Nobre da Liga Naval Portuguesa, na noite de 26 de Fevereiro de 1918, Alfredo Pimenta, ao tempo um dos teóricos mais evidentes dos realistas colocara a questão do seguinte modo: «Entendo que os monárquicos devem individualmente dar todo o apoio e aplauso, escrito e falado, ao princípio presidencialista.»

«É preciso», diria ainda Pimenta, «impedir que o Sr. Sidónio Pais saia do Poder, concorramos individualmente a dar-lhe a força precisa.».

«A República ou é parlamentar (…) ou é presidencialista e, então, deixa de ser autêntica República. Os presidencialistas não são republicanos puros, são republicanos monarquizados.

Oxalá triunfe o princípio presidencialista!»

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