Novas Viagens na Minha Terra – Série II – Capítulo 197 – por Manuela Degerine

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Desvenda-se o mistério

Quem é vivo sempre aparece, pelo menos no Caminho de Santiago, portanto deparo no albergue com um velho conhecido: o polaco da chuva. Veio de autocarro a Muxia, irá – ou já foi – a Finisterra. Não vale a pena sublinhar a euforia do nosso encontro.

Começo a instalar o saco-cama quando um bonitão entra na camarata e me pespega dois beijos. A fisionomia não me é estranha, não consigo todavia situá-lo, logo surge Mika morena e radiosa: o alemão que estava com ela ontem. Acende-se um holofote no meu espírito…

Franz fez decerto a aposta – ou a prece – de arranjar namorada no Caminho de Santiago. (Qualquer adulto aprendeu que os encontros acontecem quando acontecem porém ele, com a idade que tem, cinquenta anos e tantos, parece ignorá-lo.) A princípio com Mika que, entre só e mal acompanhada, optara pela segunda hipótese, coitada, o caso parecia encaminhado, comunicavam na língua materna, mas ela secava-se como a pele de tigre esticada ao sol, pois não sendo intrépida, é contudo viva, inventiva, talvez mesmo instável, eis senão quando no meio do Caminho surge este matulão que, como Júlio César, pode narrar no Facebook a sua campanha: “veni, vidi, vici.” (vim, vi e venci). A bela deixa-se tanto mais seduzir quanto mais – com o austríaco – se impacientara.

Resta a Franz apostar quanto resta (o último dia) na última hipótese (a pobre de mim). Que de senhora simétrica pouco tenho e, dos Bombeiros Voluntários do Porto para cá, sempre me obstinei em caminhar sozinha… Podemos concluir que Franz é mau observador e ainda pior psicólogo.

Os dois alemães chegam neste momento ao albergue: exaustos, esfomeados e deslumbrados. Felizes. Caminharam o máximo pelas praias e, mesmo sem sol, apanharam um grande escaldão, depois passaram pela farmácia e pelo supermercado; trazem uma garrafa de bom vinho para alegrar o banquete. Peripécias muito distintas das que Mika viveria com Franz… É mais do que certo. O Caminho de Santiago não é igual para todos.

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