Novas Viagens na Minha Terra – Série II – Capítulo 198 – por Manuela Degerine

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Viajar

Como amanhã nos dispersamos, converso um pouco com Bruno, contudo encontramo-nos na camarata e, mesmo murmurando, parte da zona polaca uma ordem.

– Chiu!

Devem ser nove horas mas há quem queira dormir. Portanto despedimo-nos. Gostei dos meus compatriotas: amáveis, divertidos e tolerantes companheiros. Respeitam a minha singularidade. Nunca se vexaram por eu ficar para trás. Nunca lançaram olhares de espanto nem censura. Nunca emitiram reparos nem sermões.

Mika, o companheiro e mais algum germanófono fazem escarcéu – o vocabulário marítimo é aqui apropriado – na cozinha. Encontram-se no rés-do-chão, nós no primeiro andar todavia, por o espaço interior ser aberto, não só os odores, também os sons se expandem. No edifício, embora bonito, a forma e a função não se adaptam: quem conseguirá dormir quando o albergue ficar cheio? Se no casarão de Redondela, construído há séculos com outros propósitos, os ruídos do rés-do-chão não acordam a camarata, nesta obra desenhada para ser albergue recorremos a tampões auriculares… Que por razões de segurança – não só – muito deixam a desejar. (Estamos em abril e cada dia chove, a maioria dos beliches permanece vazia, o que garante relativo distanciamento, por outro lado, se excluirmos a dinamarquesa de Negreira, este grupo de peregrinos mostra-se educado: pouco tenho tapado as orelhas.)

Há um ano o frio, a humidade e a tendinite consumiram-me o entusiasmo, por consequência em Muxia meti-me com alívio no saco-cama, que cheirava a bafio como toda a roupa de todos os peregrinos: o perfume de 2012. Era a última noite… Nunca senti tantas saudades do conforto doméstico.

Outro é agora o balanço. Há um Eça de Queirós para cada momento: estou a lembrar-me d’A Cidade e as Serras. Eu desejava muito viajar e não me posso queixar. O Caminho de Santiago evitou-me o desconforto – que Zé Fernandes aponta – das malas, dos criados, dos “palaces”, o aborrecimento dos comboios, o dissabor de lidar com taxistas e até, na maioria das etapas, o risco dos automobilistas. No entanto se não perdi no “room service”, como ele, a roupa, o calçado, os chapéus, os lenços, cada tarde vesti/calcei as peúgas, as cuecas, o sutiã molhados e, no dia seguinte, a camisola muito húmida; no mínimo catorze vezes também espalhei o olhar incerto por camaratas, colchões, duches, sanitários… Compreendo o seu desconsolo, a sua inquietação e as suas dúvidas. Em contrapartida regalei-me com produtos da melhor qualidade, chá, cacau, chocolate, muesli, massa, arroz, legumes, frutos secos e frescos sem precisar de os pedir em línguas desconhecidas, de os esperar tristonhamente, de os repelir com carantonhas – e a minha entranha nunca se escangalhou. Logo: mantive a força, a fantasia, a curiosidade, indispensáveis em qualquer viagem. (Eis aqui a maior diferença.) Visitei apenas três catedrais e meia dúzia de igrejas mas passei treze dias na beleza do mundo. E todos os instantes me pareceram de alguma maneira doces pelos encontros, descobertas e experiências singulares. Não cheguei a gastar seiscentos euros… Posso concluir que regresso a casa mais rica: viajei.

Sinto agora vontade de prolongar o serão. Não quero todavia incomodar quem dorme nem importunar quem fraterniza… Acabo por me deitar. (Vinte e oito quilómetros com a mochila, quatro sem ela e uma consciência tranquila: de imediato adormeço.)

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