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O meu nome é João, sou tipógrafo. Herdei do meu avô uma casa com um quintal imenso: além dos três barracões, tenho até duas palmeiras. Fica sobre Alfama, num socalco entre o Largo da Marinha e a rua das Escolas Gerais, o Tejo ao longe. Mariana é a minha mulher, varina que largou a canastra para ascender a dona de um lugar de peixe. Dolores é a nossa filha única, garota esperta e desembaraçada. Fez o Instituto Superior Técnico, notas altas, até conseguiu uma bolsa para um curso de informática nos Estados Unidos. E ali conquistou uma outra bolsa, mas para o Japão.
Há um mês a Dolores regressou a Lisboa com um colega japonês a tiracolo e ao qual chamei Samurai. A Dolores torceu o nariz mas ele não levou a mal a alcunha, até sorriu. Num dos barracões do quintal os dois conceberam, desenharam, montaram e, com a ajuda de vários técnicos, estão a afinar uma geringonça a que dão o nome de robot doméstico que pretendem comercializar por toda a Europa. Ao zingarelho chamei Tareco. Riram, aceitaram o nome, aplaudiram.
Um dia o Tareco deu uma curva pelo nosso quintal e plantou-se à minha frente. Piou:
– Fiz a curva. Vossa Excelência gostou?
– Vossa Excelência? Ó meu papagaio electrónico, por acaso estás a querer gozar comigo. Vai mas é chatear o Camões!
– Eu li Camões, chatear não sei, mudam-se os tempos, mudam-se as vontades.
– És muito inteligente, Tareco. Tu tens um grande cu.
– Inteligência? Cu? Não observo conexão.
– É uma expressão idiomática. Sabes o que isso significa?
– Sei pois. É um idiotismo, uma comunicação particular de um idioma, neste caso o português, e sem lógica aparente.
– Estou espantado, és um verdadeiro sabão. Portanto, ó grande idiota, vê lá se entendes o idiotismo. Tu és muito inteligente, portanto tu tens…
– Eu sou muito inteligente, eu tenho um grande cu.
Quando tomou consciência (um robot tem consciência?) da esparrela em que caíra, embatocou, sofreu um derrame electrónico, pico de tensão nos circuitos, começou a zanzar e a gaguejar, apagou-se. Só por causa daquela conversa tão inocente ficou duas semanas na oficina e a Dolores passou-me um raspanete. Que o cérebro dele, ou lá o que é, só está organizado para o pensamento lógico. Malícia e ardis estão fora do seu alcance. Que eu não estragasse o trabalhinho em que ela, há cinco anos, queimava as pestanas. Defendo-me: a falar com a minha própria voz e a dizer coisas já com nexo, o Tareco deixara-me com os nervos em franja, perdoa lá o acontecido. Encolhe os ombros e eu volto à lide, que remédio… Saído da enfermaria, volta o Tareco à moenga:
– Boa noite, João. Desculpa o acontecido.
– O culpado não és tu, ó cara de semáforo. A culpada é a tua mãe putativa. Mas, de castigo, vê lá se consegues dizer debaixo da pipa está o pinto, pia o pinto, pinga a pipa.
– Debaixo da pipa está o pio, pita a pipa, pinga o pito.
Desato a rir mas logo paro, que a Dolores pode aparecer. Mando o Tareco parar com o trava-línguas. Digo-lhe:
– Então boa noite, Tareco. Como é que vai essa bizarria?
– Bizarria é sinónimo de arrogância, galhardia, bazófia. Não observo conexão.
– É outra expressão idiomática.
– Expressão idiomática, quando dita por João, pode ser malícia e esta perturba os meus circuitos. Bizarria, entrada recusada. Volto ao princípio: boa noite!
– E o que é que tu entendes por malícia, ó ferro-velho? – Malícia é a tendência para o mal, é astúcia, é dizer ou interpretar com um segundo e sempre mau sentido, é um jogo aleatório com trunfos escamoteados até ao fim, circunstância que nele impede a aplicação do cálculo das probalidades. Malícia é a lógica subvertida pelo instinto e este, ao gosto das tuas alegorias, é o meu abismo, é o meu calcanhar de Aquiles, condicionalismo (ou se queres, fatalidade) da minha origem cibernética.
– Mas que grande discurso… Leituras, lá isso tens tu. Mas ouve lá, ó fala-barato, o que é que tu entendes por instinto?
– Instinto é um comportamento que, sem ter sido aprendido (portanto hereditário) é realizado automática e uniformemente por todos os indivíduos de uma mesma espécie, sem conhecimento quer do fim para que tende, quer da relação entre este fim e os meios empregados para o atingir. Sois diferentes de mim…
– Ou antes, tu é que és diferente de nós. Olha o pecado do orgulho, Tareco. Safa-te dessa enquanto é tempo…
– Corrijo: sou diferente de vós. Instinto integra um conjunto fora do alcance do meu entendimento. João, ouve… oiça… Como devo tratar-vos?
– Gostei do gaguejar, sinal que já começas a ter o verbo afinadinho. Somos amigos, somos compinchas. Tareco, trata-me por tu.
– João, somos compinchas, de verdade?
– Já te disse que sim.
– Então, João, sê compincha e não perturba os meus circuitos, não sejas mau.
– Tareco, eu não sou mau. Só estou a treinar-te, a ver se te fazes homem, se ganhas ronha.
– Ronha? Estamos outra vez na vizinhança do meu abismo, tu insistes. Bem disse o Samurai que tu és mau.
– O Samurai é como se fosse o teu pai. Pensa que hás-de ser sempre criança. São formas de embalar meninos, ele não queria dizer isso.
– Uma proposição ou é verdadeira ou falsa e não existe terceira alternativa.
– Ah sim? Muito me contas… És muito vivo…
– Vida é fenómeno biológico. Eu sou electrónico. Portanto não sou vivo.
– Mas pensas, não pensas?
– Pensar, eu penso bem.
– Lá modéstia não te falta… Mas agora ouve lá e responde: quem tem juízo faz pela vida. Certo ou errado?
– Certo!
– Quem pensa bem, tem juízo. Certo ou errado?
– Certo!
– Logo, quem pensa bem, faz pela vida. Certo ou errado?
– Certo!
– O Tareco pensa bem. Logo o Tareco faz pela vida. E ao mesmo tempo, palavras tuas, o Tareco não é vivo. Sai dessa!
– Falácia, falácia! Uma única palavra foi usada por ti com sentido duplo.
– Nisso é que te enganas, ó monte de sucata. Tu é que recusaste o primeiro sentido e foste atrás do segundo. Ou seja, quiseste farejar a ronha que não havia, partiste os cornos. Foi ou não foi?
Agitou os braços. Devem ter ido ao rubro os filamentos. Começou a gaguejar, mas um gaguejar com muita pinta, coisas da electrónica, tutumente, tutumau, realmente tu és mau. Recuou, abanou as antenas, revirou as lentes, avançou, alçou o rabo, temi que lhe desse o trangolomango mas, por fim, lá sossegou. De qualquer forma, ainda não perdi a esperança de um dia lhe provocar um curto-circuito existencial. Censurou-me:
– Outra vez me empurraste para a beira do meu abismo.
Respondi-lhe:
– Nada disso, rapaz, isto é ronha. Nem tudo, na vida, segue as leis da lógica. Ou então a lógica é uma batata que ainda não foi capaz de abranger a vida toda.
Desandou.


Que bela maneira de começar o dia, com este texto! Fernando, para além dos brilhantes trocadilhos, vislumbro algumas alegorias. Só que essa parte não me faz rir…
Brilhante texto! Com tanta “ronha”, tive até pena do pobre Tareco.
Parabéns! Fernando.
abraço da
Rachel