FRATERNIZAR “O QUE FAZ CORRER UM BISPO?”

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De Aveiro para o Porto

Era o Bispo da diocese de Aveiro, desde 21 de Setembro de 2006. O papa Francisco acenou-lhe com a Diocese do Porto e ele, na mesma hora, largou tudo, pessoas, projectos iniciados, afectos, situações mais ou menos delicadas e melindrosas que um qualquer bispo que se preze tem sempre entre mãos, e passou de imediato a ser o Bispo do Porto. O que faz correr um bispo cristão católico romano?! A pergunta justifica-se e impõe-se. E a resposta, é óbvia. No caso, ser Bispo do Porto é muito mais prestigiante e muito mais poder que ser Bispo de Aveiro. E para quem tem como objectivo fazer carreira eclesiástica, ser Bispo do Porto representa mais, muito mais do que ser Bispo de Aveiro. E este salto na carreira eclesiástica é muito maior que o salto territorial, de Aveiro ao Porto. Enfim, Episcopus. Enfim, Bispo do Porto. Do Porto? Sim, do Porto! É quase o topo da carreira. O ego do bispo transborda. Torna-se rio que galga as margens. Faísca-lhe dos olhos, o tenebroso brilho do Poder. Pois então, chore quem chorar, a carreira, primeiro! E, por isso, o novo Bispo de Porto. Eis-me aqui, senhor papa de Roma! Envie-me! Deus? Mas que tem Deus a ver com a igreja católica romana? Só mesmo o Deus Poder, cujo máximo representante no mundo é o papa Francisco e, no Porto, é, agora, o bispo D. António Francisco dos Santos.

Alguns padres da Diocese de Aveiro ainda tentaram, sobre a hora, demover, não o Bispo, mas o Núncio apostólico. Haveria problemas delicados em curso que exigiam mais tempo de presença deste Bispo. Ignoram, estes pobres clérigos, que as pressões deles sobre um representante do Estado do Vaticano em qualquer parte do mundo, têm um efeito oposto ao desejado. No caso, aceleraram ainda mais o processo. E a nomeação foi imediata. Decide o núncio, alter ego do Papa de Roma. E assina o papa de Roma. No caso, Francisco. Em tudo igual, como se vê, aos seus antecessores, que a Cúria Romana não muda, pelo facto de mudar o papa. O papa de turno passa, mas a Cúria romana fica. E só ruirá, quando ruir o cristianismo eclesiástico. O que já esteve mais longe de acontecer.

Por esta simples decisão, se vê o “peso” do papa Francisco na igreja católica romana. Nenhum. Pode dizer umas palavras mais sonantes e fora do habitual, mas o que fica para a história são os actos da Cúria. E também os actos do papa, enquanto o chefe da Cúria. Ser Bispo da Igreja de Roma, não significa rigorosamente nada. Como ser Bispo da Igreja de Aveiro, nada significa também. O que conta, em Roma, é ser papa, chefe de estado do Vaticano. Como o que conta no Porto, é ser o Bispo do Porto! Que vale quase tanto como ser o papa de Roma. É o papa de Roma em ponto mais pequeno. E no Porto, que “pesa” ainda mais que Lisboa, coisa que o Bispo D. Manuel Clemente parece não ter entendido e, por isso, correu atrás do título, D. Manuel III, Patriarca de Lisboa e, de repente, percebeu que a monarquia já foi extinta há mais de cem anos! Mas, agora, já não há volta atrás. Resta-lhe ser um Patriarca fútil e pouco mais! E é o que ele já está a ser. Domesticado, pois então. Ou o núncio não esteja ali mesmo ao lado.

E assim, de repente, o tabuleiro do xadrez eclesiástico em Portugal alterou-se. Em duas dioceses. O que faz correr um bispo, senão o Poder?! Os Bispos nunca o admitem, ao nível dos discursos. Gritam-no, porém, as suas posturas. O Bispo D. António Francisco dos Santos aí está. Quando já nem ele próprio esperava e já se resignava a ser bispo de Aveiro, pelo resto da vida, eis que o sopro do Poder lhe entrou pela sua mente adentro, ocupou-a, instalou-se nela e ele diz. Enfim, Bispo do Porto! De todo o lado, começam a chover felicitações, inclusive, dos padres de Aveiro que, à última hora, tentaram demover o núncio em Lisboa. A partir do momento em que António Francisco dos Santos aceita ser o Poder eclesiástico do Porto, todos o reconhecem, se lhe submetem e o felicitam. Mesmo que nunca tenham conversado com ele. O cristianismo é assim. Cristianismo é Poder. O Poder. Sagrado. A Hierarquia. Ei-lo, pois, aí, em todo o seu esplendor de treva. O vencedor tem sempre razão. O vencedor é sempre adorado/idolatrado. O vencedor é Deus. Deus, sou eu, diz o bispo do Porto! E, se não vai tão longe no discurso, vai nas posturas. Vê-se ao espelho e pergunta, Espelho meu, há alguém mais poderoso do que eu?! Na diocese do Porto, não! E agora és tu o Bispo do Porto. E a história, escrita pelos vencedores, há-de registar para sempre o facto. Mas para vergonha de quem renuncia a ser humano e se faz Poder, diz, baixinho, o espelho. Chorai, pedras da calçada, chorai!

Entretanto, só no dia 6 de Abril, o novo Bispo do Porto se apresentará à diocese. Mas quem abre hoje o site da Diocese do Porto, logo esbarra com as muitas caras do novo patrão da diocese do Porto. O site é ele! Como a igreja do Porto é ele! Por sinal, uma crueldade que o Poder de Roma comete contra ele. Porque, se havia um bispo da Igreja de Aveiro, não haverá um bispo da Igreja do Porto. No Porto, o bispo da Igreja do Porto é “comido” e desaparece. Que o diga D. Pio Alves! Fica apenas o patrão. O Episcopus! Só que, nesta altura, terá de ser um patrão sem funcionários eclesiásticos. Uma tortura, portanto. Impossível ser-se bispo da Igreja do Porto. O Poder não permite e mata o bispo que o queira ser. Este, não será excepção. Tal como em Roma é impossível ser Bispo da Igreja de Roma. O Poder não permite. O papa Francisco aí está. Pode rir, mas é de si próprio. Da figura que faz. Tudo nele é Poder. Só poder. Nunca mais será humano. Nem que, um dia, decida ser papa emérito. Nunca mais será Humano. Só mesma a Morte, quando chegar, conseguirá resgatá-lo das garras do Poder. E ele poderá dizer, Enfim, ser humano. Enfim, Jorge Mário, bispo! Enfim, António Francisco, Bispo. Um ministério, como o ministério de Presbítero, que, ao serem assumidos na história por inteiro, levam cada ser Humano que os viva, à plenitude, porque à entrega das suas próprias vidas pela vida do mundo. E isso, o Poder nunca perdoa!

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