EDITORIAL – A incompatibilidade entre Democracia e centralização do poder

Imagem2Vamos resistir à tentação de glosar o tema “Miguel Relvas – Groucho Marx”. Registamos apenas um facto – Relvas até uma simples citação tem de falsificar – entre dezenas de frases do grande comediante que podia ter escolhido, tantas são as que se lhe aplicam, teve de recorrer a uma que Groucho nunca proferiu. Há coisas que nunca mudam.

Falando do marxismo (o de Karl Marx), há conceitos que, criados para a organização partidária da classe operária, passaram para as estruturas partidárias em geral, instalando-se inclusivamente em partidos de direita. Um exemplo da transversalidade de algumas dessas formas organizativas é o do princípio marxista-leninista do «centralismo democrático». Numa descrição sumária deste conceito de estrutura organizativa, temos  a elegibilidade de todos os cargos e a possibilidade da sua revogação em qualquer altura; uma severa centralização em que todas as decisões aprovadas pela maioria devem ser acatadas pela minoria; uma forte disciplina implantada a todos os níveis da estrutura; permanente possibilidade de discussão da linha política; o imperativo da crítica e da autocrítica; unidade na acção, não se admitindo a criação de facções, fracções, tendências ou «sensibilidades». Foi  este sistema de direcção partidária criado por Lenine que  conduziu em linha recta ao estalinismo e às suas consequências, entre as quais a eliminação física de quem se atreveu a discutir a linha política do partido (segundo o projecto de Lenine, podia ser discutida permanentemente). Depois, já não era apenas a linha do partido que era crime discutir – crime maior era discordar –  pois também todas as directivas emanadas do comité central, não podiam ser contestadas… As purgas em que foram executados centenas de milhares de comunistas, eram a forma «democrática» de resolver a discussão. Chegou-se a um ponto em que, como as paredes tinham ouvidos e microfones também, as pessoas já tinham medo de pensar algo que fugisse à ortodoxia. Em «1984», o genial romance de George Orwell, retrata-se de forma exemplar uma sociedade dirigida pela omnipotência do Big Brother (uma espécie de Facebook…).

O «centralismo democrático» vigora nos partidos comunistas e não só, pois foi adoptado por organizações partidárias e movimentos de todo o leque político, da extrema-direita à extrema-esquerda. No fundo reproduz o conceito de democracia a que Jean-Jacques Rousseau punha reticências em Do Contrato Social – o que assenta no princípio da representatividade. As massas ou os militantes elegem representantes, que, depois de eleitos, passam a agir sem consultar os eleitores ou sem sequer respeitar os pressupostos programáticos que conduziram à sua eleição. Albert Camus, em O Homem Revoltado, chama a atenção para o facto de Lenine, inspirado em Karl Marx, ter criado o imperialismo da Justiça, «justificando com uma justiça longínqua a injustiça durante todo o decurso da História». Centralismo democrático? – Não pode ser: os dois termos excluem-se reciprocamente: – ou bem que é centralismo, ou bem que é democrático.

Voltando a Relvas, a citação de Groucho que melhor lhe assenta é aquela que, mais ou menos, diz – sou um homem de princípios, mas se não gostarem destes arranjo outros. “Maleabilidade” que não é só de Relvas, mas parece ser norma da classe política em geral.

1 Comment

  1. Cabe na cabeça de alguém, por pouco inteligente que seja, que votando num partido os nomeados vão defender os interesses dos eleitores? ahahahahahaha… Vão obviamente defender os interesses dos partidos que os elegem e a quem devem obdiência cega! Os eleitores são mero substrato para legitimização dos seus torpes interesses, aliás, “os eleitores” são os mesmo que conhecemos como “contribuintes” e como “utilizadores pagadores”! Ena! Tantos rótulos… Até parecem “doutores”.
    Abram a pestana, Ó votantes…

Leave a Reply