A questão da Ucrânia é de enorme gravidade, sobretudo porque se percebe ser muito difícil obter uma solução que proporcione um mínimo de satisfação a todas as partes envolvidas. O ressuscitar dos fantasmas da guerra fria em nada é favorável aos interesses nacionais ucranianos, pelo contrário. Será bom que os ucranianos percebam que a inimizade entre a Rússia e a Ucrânia em nada os favorece; a Europa e os Estados Unidos podem proferir muitas declarações de solidariedade, mas nada farão de realmente benéfico para os ucranianos. Basta atentar nos problemas que afligem as suas populações, e nos métodos utilizados para as camuflar, mais do que para as resolver.
Para todos nós, incluindo os ucranianos, é da maior importância não perder de vista o que se passa no resto do mundo. Nos vários continentes ocorrem situações de grande tensão e violência real e potencial que afligem enormemente as pessoas comuns em vários países, que têm tido acompanhamento muito mais reduzido do que a Ucrânia, o que talvez tenha motivado The Guardian a apresentar a semana passada este trabalho, que podem encontrar neste link:
Já algumas pessoas notaram que no Egipto já morreram muito mais pessoas devido à violência do que na Ucrânia, contudo a situação tem merecido muito menos atenção dos meios de comunicação. Isto é verdade, e poder-se-ia dizer o mesmo em relação a outros países. A Tailândia e o Camboja há meses que vivem em estado de grande agitação, e é-nos difícil obter informação concreta sobre o que se passa naqueles países, para além de notícias muito breves na imprensa e muito rápidas na televisão. As razões dos conflitos que ocorrem nesses países são diferentes, mas isso só torna maior a importância de as conhecer.
O único país que tem ombreado na grande comunicação em volume de notícias com a Ucrânia, tem sido a Venezuela. É verdade que os conflitos nos dois países têm razões muito diferentes. Mas também não se justifica o lugar de destaque (será mesmo destaque?) que têm em relação a todos os outros. Por outro lado o rigor noticioso não parece abundar nas notícias que lemos e ouvimos todos os dias na tal grande comunicação. Propomos que leiam novamente The Guardian:
http://www.theguardian.com/commentisfree/2014/mar/04/venezuela-protests-not-ukraine-class-sturggle
A questão venezuelana é tão importante quanto a ucraniana. Não só pela igualdade de direitos que deve prevalecer entre todos os seres humanos, mas também pelos reflexos que tem sobre o resto do mundo. Desde a questão energética, pois a Venezuela tem reservas colossais de petróleo e gás, até ao problema da desinformação, na medida em que a grande informação omite questões como o facto de 80 % por cento da comunicação social venezuelana estar nas mãos de grupos privados, e o aspecto essencial de os conflitos nacionais serem basicamente entre ricos e pobres.

