Parte I
SERÁ QUE “O PAÍS ESTÁ MELHOR” COMO AFIRMAM PASSOS COELHO E PAULO PORTAS? – A verdadeira situação real do país
Uma das “teclas” mais repetidas no congresso do PSD, particularmente por Passos Coelho, e depois pelos media, foi precisamente a de que “o país está melhor”. Paulo Portas, na conferencia de imprensa de 28-2-2014, sobre a 11ª avaliação da “troika”, também procurou “vender” a mesma mensagem. É evidente que está em curso uma gigantesca operação de propaganda do governo, com o apoio dos grandes media, e com a participação de muitos comentadores com acesso fácil ou instalados nos media, visando convencer a opinião pública, de que “o pior já passou”, e que a economia portuguesa já está numa fase de recuperação e crescimento (o ministro da Economia, Pires de Lima, fala mesmo do “milagre económico”). Para conseguir isso, manipulam-se previsões, empolam-se dados, e escondem os que não interessam, repetindo até à exaustão apenas o que interessa à propaganda oficial procurando assim reconstruir a realidade, e dando dela uma perceção que não tem nada a ver com a situação atual do país. São formas clássicas de engano e manipulação da opinião pública. É previsível que tal esforço de manipulação se acentue com o aproximar das eleições europeias. Por isso, interessa analisar com objetividade esta questão. É o que iremos fazer.
O CRESCIMENTO ANÉMICO DO PIB NOS ÚLTIMOS TRIMESTRES 2013 FOI DEVIDO PRINCIPALMENTE À UM PEQUENO AUMENTO DA PROCURA INTERNA E NÃO DAS EXPORTAÇÕES
Um dos argumentos mais utilizados nesta campanha de manipulação da opinião pública é variação trimestral positiva do PIB verificada nos últimos trimestres de 2013. E isto apesar de em termos anuais, segundo o INE, o valor do PIB em 2013 ter sido inferior ao valor de 2012 em -1,4% (mais uma quebra, a somar às anteriores). Um aspeto importante que tem sido ignorado quer pela propaganda governamental quer pelos comentadores habituais dos media, é que essa variação positiva (+1,1% no 2º Trim.2012;+0,3% no 3º Trim.201;e +0,5% no 4º Trim.2013, portanto, crescimentos anémicos) ter sido conseguida, não através do aumento das exportações, mas devido a uma pequena reanimação da procura interna, o que prova que a recuperação da economia e do país passa fundamentalmente pela recuperação do consumo e do investimento interno, e não pelas exportações como o governo e comentadores nos media têm procurado fazer crer. O gráfico 1, construído com dados do INE (CNP), mostra a correlação entre 3 variáveis macroeconómicas (PIB, exportações e procura interna) no período 1ºTrim/2011/3ºTrim.2013, ou seja nos últimos 3 anos:
Como se rapidamente se conclui do gráfico 1, entre o 1º Trim.2001 e o 3º Trim.2013 a procura Interna diminuiu de uma forma contínua, o que determinou que, nesse período, o PIB tenha caído também de uma forma continua. E isto apesar do aumento importante das exportações neste período. Só a partir do fim do 1º semestre de 2013, é que se verificou uma pequena recuperação da Procura Interna, o que determinou que a queda no PIB tenha parado, e se tenha verificado uma recuperação anémica (muito reduzida) do PIB. Se comparamos os valores do 1º Trim.2011 com os do 4º Trim.2012 divulgados pelo INE, o valor das exportações aumentou em 8,8%, o da Procura Interna diminuiu em 11,3% e o do PIB caiu em 6,2%. Se fizemos agora a mesma comparação, mas comparando os valores referentes ao 4º Trim.2012 com os do 3º Trim.2013 concluímos que, apesar do aumento das exportações ser menor (7,2%), como a Procura Interna cresceu em 1,2%, o valor do PIB do 3º Trimestre de 2013, a preços constantes, é já superior ao valor do PIB do 4º Trim.2014 em 2,5%. É evidente que a recuperação económica está muito mais dependente da Procura Interna do que da Procura externa, como a propaganda oficial pretende fazer crer. O próprio FMI, no seu relatório referente à 10ª avaliação reconhece isso, nos seguintes termos: “ A procura interna caiu 13% desde 2010 – com o consumo e investimento diminuindo 11% e 27% respetivamente – o que não foi suficientemente compensado pela contribuição das exportações liquidas. A inversão desta tendência, em que a procura interna no 2º e 3º trimestres de 2013 se expandiu, reforçou a contribuição das exportações líquidas induzindo um crescimento positivo” (pág. 5). E isto porque, segundo o INE, nos primeiros 3 trimestre de 2013 o rendimento líquido das famílias aumentou +0,7% (+668M€) relativamente a 2012, quando em período homologo de 2012 tinha caído -3,9% (-3.955M€). No entanto, este crescimento económico anémico é precário como reconhece o próprio FMI que afirma: “Nos primeiros 10 meses de 2013, o aumento das exportações em 5% foi devido principalmente às exportações de combustíveis e, em menor extensão, à de serviços, pois o crescimento das exportações sem os combustíveis foi apenas de 1,5%” (pág. 6). Dados referentes a todo ano de 2013 do INE confirmam a fragilidade do aumento das exportações portuguesas (quadro 1).
Segundo o INE, as exportações de bens em 2013 cresceram 4,6%, mas se retiramos os combustíveis o aumento, relativamente ao valor de 2012, foi apenas de 2,1%. Se tivermos, presente que o aumento verificado nas exportações de combustíveis em 2013 – + 33,2% – é irrepetível em 2014 porque a capacidade de utilização da refinaria de Sines praticamente atingiu o seu máximo em 2013, facilmente se conclui da fragilidade da subida das exportações portuguesas de bens. Se juntarmos a isto, o facto de que o aumento de 7,7% verificado em 2013 a nível das exportações de serviços (em 2012 tinha diminuído 0,3%) tem como base fundamentalmente o turismo, e que a subida em 2013 se deveu principalmente ao desvio para Portugal de fluxos turísticos que tinham como destino países árabes devido à instabilidade verificada nessa região, a fragilidade das exportações portuguesas ainda se torna mais clara e o aumento das previsões em alta – 5,7% em 2014 – anunciada por Paulo Portas na conferencia de imprensa de 28-2-2014 ainda se torna mais duvidoso.
Enquanto, a nível das exportações o panorama real é o que se apresentou, a nível da Procura Interna, fundamental para recuperação económica do país, ainda mais importante devido às características e fragilidade das exportações portuguesas, a situação é preocupante resultante do facto do governo pretender fazer mais um corte brutal de 3.900 milhões € (corte na despesa de 3.100 milhões € o resto é aumento de impostos) em 2014, o que não deixará de ter efeitos desastrosos na Procura interna, com a elevada probabilidade de matar à nascença os indícios, ainda reduzidos e anémicos, da recuperação da economia verificados nos últimos trimestres de 2013. E se juntarmos a isto as novas exigências do FMI e da “troika” de novos cortes na despesa pública em 2015 (cerca de 2.000 milhões €) e nos anos seguintes que o governo prometeu à “troika” incluir no “Documento de Estratégia Orçamental 2014-2016”, rapidamente conclui-se que, se tal se concretizar, a retoma sustentada da economia portuguesa está muito longe daquilo que a propaganda governamental e os seus defensores nos media procuram fazer crer a opinião pública. Esta situação é ainda agravada por um endividamento brutal do Estado e do país que constitui um forte garrote a qualquer crescimento económico sustentado, como vamos provar.




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