UCRÂNIA – O SUBSTRATO IDENTITÁRIO DA CRISE ACTUAL – por ROMARIC THOMAS

Tradução de Júlio Marques Mota. Introdução de François Asselineau.

Ucrânia: O substrato identitário da crise actual 

Romaric Thomas

PARTE III
(CONCLUSÃO)

III. A RESSURGÊNCIA DAS GUERRAS CIVIS ( séculos XX-XXI )

Se os mitos fundadores chegaram a dar ao conjunto dos Ucranianos uma consciência viva da sua identidade nacional, falharam totalmente no que diz respeito à sua unificação numa comunidade de pontos de vista sobre o futuro do seu país. A razão deste malogro tem a ver com os próprios limites destes mitos, cuja natureza ideológica proibia aos seus autores que tomassem em consideração dois aspectos essenciais da realidade ucraniana:

1. ser-se anti-russo, é visto  como consubstancial à identidade ucraniana pelos Ucranianos do Oeste (nas terras antigamente austríacas, do irredentismo radical),

2. e a fé ortodoxa e a língua russa, olhados como constitutivos desta mesma identidade pelos Ucranianos das regiões orientais do país.

Estas linhas de fractura, contemporâneas da emergência no século XVII de uma identidade ucraniana própria, nunca mais foram superadas. Enquanto a dominação russa se fez sentir, estas dissensões foram relegadas para trás tendo em conta o objectivo comum da independência do país; mas quando a Ucrânia a obteve em 1917, durante três curtos anos, reapareceram, antes de serem outra vez mortas sob o regime soviético. Durante a segunda guerra mundial, o anti-russismo da Ucrânia ocidental traduziu-se por uma colaboração activa de um grande número de Ucranianos com “o libertador” alemão (considera-se o seu número em cerca de 220.000, das quais uma divisão de SS ). A sua resistência armada ao poder soviético prosseguiu-se até 1954.

Com a queda da União soviética, os conflitos internos da Ucrânia revelaram-se com uma violência ainda mais grave até porque durante muito tempo tinham sido reprimidos. Se o conjunto dos Ucranianos partilha os mesmos ideais de independência, de democracia e de bem-estar, três concepções do país e da identidade nacional sobrevivem ao sabor dos sobressaltos da História e alimentam a crise actual.

a) A primeira, nacionalista e violentamente anti-russa, está associada historicamente às regiões ocidentais do país, principalmente Lviv, Galicie e o Volhynie. Forneceu o grosso dos batalhões antigovernamentais e compreende um largo espectro de partidos e de tendências políticas, indo dos social-democratas aos grupos neonazis.. Fora de alguns dos partidos que defendem a adesão à UE, esta linha reivindica muito menos uma parceria com a UE do que rejeita violentamente o acordo económico concluído com a Federação da Rússia, juntando-se assim aos interesses dos Estados Unidos e da NATO.

b) Opõe-se portanto abertamente à concepção mais mediana da componente nacionalista de Kiev ou do Dniepprie, essencialmente ancorada no Leste do país, que se adapta de relações complexas mas pacíficas com a Rússia.

c) Uma terceira componente da sociedade política ucraniana, mais minoritária, é comunista e pode ser qualificada de nacional-soviética. A sua influência permanece importante entre os oficiais gerais do exército e a classe operária.

A crise que atravessa actualmente a Ucrânia é sobretudo uma crise de identidade, que se inscreve no prolongamento de uma fractura secular. Sob vários aspectos, as ingerências externas fazem apenas agitar e incentivar uma situação conflituosa preexistente, de que se pressente que poderia um dia desencadear uma guerra civil.

Deste novo episódio da crise ucraniana, quatro constatações podem ser elaboradas:

  • 1°) a grande maioria dos Ucranianos, incluindo os do Leste do país, vive de forma desesperada tendo em conta o  elevado nível de pobreza (o mais importante de Europa) e pela corrupção endémica. O descrédito do governo de Viktor Ianoukovitch na população ucraniana é uma realidade de que a Rússia tomou conhecimento desde muito cedo. A denúncia das ingerências americanas não deve conduzir a ignorarem-se  as fracturas identitárias e as reivindicações sociais que fragilizam consideravelmente a Ucrânia.
  • 2°) Os Estados Unidos, embora tendo iniciado e organizado “a revolução”, não irão tirar provavelmente senão um benefício muito relativo e a curto prazo pois a mentalidade ucraniana é profundamente rebelde face a um abandono da independência nacional, mesmo com a integração fosse via EU ou via NATO. As precedentes crises mostraram que o governo supostamente pro-ocidental soube melhor entender-se com a Rússia bem melhor do que com o governo supostamente pró-russo, nomeadamente sobre o contencioso interminável que rodeia a passagem do gás russo. A ausência total de apoio da Rússia a Viktor Ianoukovitch é disso bem esclarecedora.
  • 3°) os Estados da União Europeia têm cada um deles tentado   apenas defender os seus interesses ou os dos seus comanditários, sem se preocuparem de modo algum em elaborar uma quimérica política estrangeira comum.
  • 4°) O interesse da França impõe-lhe que reafirme com força os princípios de independência e de não ingerência, fundamentos essenciais tanto da sua própria soberania como da ordem internacional.

Romaric Thomas, Ukraine : Le substrat identitaire de la crise actuelle,  Texto disponível  no site de UPR , cujo endereço é :
http://www.upr.fr/videos/av/grand-debat-francois-asselineau-alexandre-melnik-la-place-de-la-france-dans-le-monde-du-xxie-siecle

Romaric Thomas

Romaric Thomas – Adhérent de l’UPR, spécialiste du monde slave et orthodoxe

Romaric Thomas est né en France en 1975. De formation juridique, il a d’abord exercé comme juriste d’entreprise puis comme notaire salarié, avant d’intégrer le monde associatif. Passionné d’histoire et de littérature dès son plus jeune âge, il a eu la chance de parcourir plusieurs pays, notamment les États-Unis, le Japon et l’Italie, au cours de son adolescence. Il en a gardé un vif intérêt pour l’étranger, ce qui l’a conduit à acquérir une connaissance approfondie de certains pays (notamment l’Irlande et l’Arménie). La découverte de ces horizons l’a amené à se former à la théologie et la spiritualité du monde chrétien orthodoxe, à étudier l’histoire de la pensée européenne et à s’intéresser à la géopolitique du monde slave.

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Para ler a segunda parte deste trabalho de Romaric Thomas, publicada ontem em A Viagem dos Argonautas, vá a:

UCRÂNIA – O SUBSTRATO IDENTITÁRIO DA CRISE ACTUAL – por ROMARIC THOMAS

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