Na última quarta-feira, dia 5 de março, às vésperas, portanto, do Dia Internacional da Mulher, o jornal O Globo divulgou longa matéria sobre a Aids e os heterossexuais e, em especial, sobre a incidência maior da contaminação entre as mulheres. O Rio de Janeiro é o quarto estado do país com maior incidência do vírus, mas o Rio Grande do Sul tem o dobro da incidência média nacional. E, como declara o diretor adjunto do programa da Aids das nações Unidas ( UNAIDS) , “As mulheres, e sobretudo as mulheres jovens , têm dificuldades de sobreviver nesta sociedade, por conta da violência e da discriminação. Os homens, em muitos casos são predadores. A violência e o preconceito dificultam a proteção.”
Além disso, o jornal O Estado de São Paulo divulgou recentemente uma chocante estatística resultante de pesquisa da Fundação Perseu Abramo em parceria com o Sesc ( Serviço Social do Comércio) : a cada dois minutos, cinco mulheres são agredidas violentamente no Brasil.
Sobre a violência doméstica, 48% dos homens entrevistados conhecem ou são amigos de alguém que já bateu em mulher; 25% são parentes de espancadores de mulheres e 8 % admitem já ter espancado a mulher.
E quais são os motivos que levam a isso? Em primeiro lugar, os ciúmes, logo depois, o estado de embriaguez do agressor que é muitas vezes alcoólatra; em terceiro lugar, a suspeita da infidelidade da mulher e, em quarto, o fato da própria mulher ter descoberto a infidelidade do parceiro. Em suma, o machismo, a ignorância e a prepotência, infelizmente, continuam a caracterizar o comportamento de muitos homens neste início do século XXI em nosso país.
Na área do trabalho, o aspecto gritante da desigualdade entre homens e mulheres, segundo o IBGE ( Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) é que as mulheres continuam a ganhar menos do que os homens em todas as posições ou cargos que ocupam. E “entre pessoas com 12 ou mais anos de estudo (nível superior completo ou incompleto) a desigualdade é ainda maior”. E na área rural, onde a média de anos de estudos, “apesar de estar em patamares mais baixos, também é favorável às mulheres”, elas são igualmente discriminadas e mal pagas.
E o estudo também lembra o que quase nunca é mencionado: a atividade “preponderantemente realizada pelas mulheres, e praticamente invisível na sociedade” – a realização dos afazeres domésticos.
Já tive oportunidade de escrever que reconhecer o valor social dos serviços domésticos implicaria em incorporá-los à vida social como um todo, isto é, implicaria em socializá-los, o que permitiria às mulheres uma participação mais efetiva e mais justa na vida social e econômica. E recentemente descobri que essa é a tese de Riane Eisler, a brilhante autora de O Cálice e a Espada. e mais recentemente de The real Wealth of Nations ( A verdadeira riqueza das nações, ainda sem tradução em português) que preconiza nada menos do que uma revisão geral da economia mundial a partir da valorização do que ela chama de caring economy, a economia de valor ainda inestimado dos cuidados com os outros: crianças, jovens, idosos, doentes, tarefas geralmente femininas e por isso mesmo consideradas menores, mas absolutamente indispensáveis ao bem-estar da humanidade inteira.
Apesar das injustiças, apesar do atraso em que vivem tantas mulheres neste mundo ainda dominado pela espada, pela ganância, pelos instintos da guerra e da destruição, pela violência e o desrespeito à diferença, vamos acreditar, teimosamente, nos homens e nas mulheres que entendem a celebração do Dia 8 de Março, dia Internacional da Mulher, como o dia da Confraternização entre os sexos e entre todos os povos.