(Continuação)
A colaboração de Breton e do seu grupo com o velho jornal de Sébastien Faure não começou com a “declaração prévia” de Outubro de 1951. Já antes disso o nome de Breton aparecera com alguma frequência nas páginas da publicação. Registemos alguns momentos. O primeiro, o discurso que fez num comício na sala “Mutualité” em 14 de Outubro de 1949 a favor da objecção de consciência ao serviço militar e que mereceu reprodução nas páginas do jornal (21-10-49). Assinale-se no discurso a alusão sempre exaltante à mobilização de 1913, dita do Pré-Saint-Gervais, contra o recrutamento e o serviço militar obrigatório, e que fora já objecto de exposição, mais vaga ou mais poética, na abertura inicial do livro de 1944, Arcano 17. Nesta nova alusão ao momento, Breton fala da manifestação como tendo sido o espectáculo que mais me marcou na minha juventude. Aqui se encontra no parecer de todos o primeiro gérmen político do jovem Breton, leitor reconhecido da imprensa libertária francesa da época, onde se topa com uma curiosa publicação L´Action d’Art, de inspiração stirnerniana, que lhe encheu por certo as medidas, e que só os sucessos ulteriores de 1917 vieram recalcar, com o fio subsequente que se sabe. Voltando às relações de Breton com Le Libertaire, que de resto era um dos títulos que ele lia em 1913, deparamos com novo texto de Breton no jornal em Janeiro do ano seguinte (20-1-1950), desta vez sobre Céline, resposta a um inquérito do jornal, aberto por Maurice Lemaître, a propósito da reabertura do processo contra o escritor refugiado na Dinamarca. Fora dos bilhetes surrealistas vale ainda reportar outro momento de Breton nas páginas do jornal. A 14 de Dezembro de 1951, no seguimento duma onda grevista que alastrou a toda a Espanha, os tribunais espanhóis condenaram à morte, em Sevilha, dois sindicalistas da C.N.T., clandestina então, e a 6 de Fevereiro do ano seguinte, desta vez em Barcelona, mais onze militantes da confederação sofrem a mesma sorte. Diante desta vaga repressiva, foi convocada uma acção de solidariedade em Paris, sala Wagram, onde Breton discursou. A peça será publicada em Le Libertaire a 7 de Março de 1952. É um dos raros momentos – o único mesmo de que dou nota, mas admito falhas – em que Breton se pronuncia sobre a mítica central sindical ibérica. É texto que por todos os motivos merecia inclusão neste número da revista. A dimensão do texto – vinte e seis parágrafos, alguns com quase duas dezenas de linhas – dissuadiu-nos porém do propósito, adiando a sua publicação integral para o público português para ocasião futura. Ainda assim deixamos, a título ilustrativo, abertura e fecho do texto: Camaradas: se em alguma parte do mundo o coração da liberdade continua a bater, se há um lugar em que essas pulsações nos chegam mais ritmadas do que em qualquer outro ponto, todos sabemos que esse lugar é a Espanha. É exaltante pensar que quinze anos de ditadura não o enfraqueceram. / Quando das greves de Barcelona de Março de 1951, pudemos constatar que não somente a combatividade dos meios operários e também dos universitários em nada havia diminuído, como ainda um contágio magnífico se estendeu ao conjunto da população, isolando num só golpe os paladinos e os carreiristas do regime e ficando em posição de expulsá-los como um corpo estranho. / Todos os que se deram conta destas greves, mesmo sem simpatia funda pelo longo sofrimento do povo espanhol, foram surpreendidos pela sua inclinação em alastrar como mancha de óleo. /…/ Há aqui um facto novo que não precisa de muita cogitação. Não é difícil interpretá-lo como uma serpe que afecta no seu conjunto toda a estrutura ditatorial. Pode-se matar, pode-se empenhar tudo a envilecer o que pode ser envilecido, pode-se agitar à direita e à esquerda o crucifixo e descarregar a metralha, pode-se esfomear um povo e separá-lo da restante comunidade humana, que não é por isso que se acaba com a alma desse povo tal como ela incarnou na minha infância na pessoa de Francisco Ferrer e depois se fortaleceu na bravura lendária da C.N.T. e da F.A.I. / (…) / Antes que seja tarde, já que de acordo com as últimas notícias os falsos advogados dos nossos companheiros foram adverti-los de que seriam fuzilados em breve, falemos a uma única voz para exigir a revisão à luz do dia dos julgamentos de Sevilha e de Barcelona, com advogados isentos e conhecedores dos processos e sob a garantia de observadores internacionais. A todo o preço, e com toda a urgência, encontremos meio outrossim de fazer chegar aos nossos camaradas uma mensagem do tipo: “Em nome de todos os homens livres e de todos os que só anseiam por se libertar, obrigado! Não perdei a esperança, que nós estamos de todo o coração em pensamento com vocês! Vida e glória à heróica C.N.T. espanhola.” Em 14 de Março, sete dias depois do texto de Breton vir a lume, cinco dos condenados foram fuzilados nos arredores de Barcelona. Pelo menos Albert Camus e Albert Béguin, o autor de L’Âme Romantique et le Rêve (1937), intervieram ao lado de Breton para salvar a vida aos sindicalistas libertários espanhóis.
Depois da tranformação de Le Libertaire em Le Monde Libertaire, a colaboração de Breton com a imprensa libertária diminui, se bem que ainda na década de 50 alguns outros momentos – a invasão soviética da Hungria, a guerra da Indochina, a guerra argelina – voltem a fazer cruzar o itinerário de Breton com o dos anarquistas franceses. Para essa diminuição muito contribuiu a publicação de duas revistas surrealistas novas, duas das muitas que o surrealismo francês criou, Médium (53-54) e Le Surréalisme Même (56-57), e nas quais Breton empenhou muita da sua energia. A colaboração de Breton com a imprensa libertária conhecerá ainda porém um episódio digno de registo. Em 1957, o velho anarquista francês Louis Lecoin, então com sessenta e nove anos, decide mobilizar-se para obter um estatuto para os objectores de consciência. Desde o comício de 1949, em que Breton estivera presente, que a situação se mantinha. Nenhum estatuto, nenhuma protecção, nenhum cuidado. Em caso de objecção, a única alternativa era o cárcere. Havia então uma centena de encarcerados, grande parte Testemunhas de Jeová. Lecoin vendeu os bens e reuniu donativos para fundar um hebdomadário, chamado Liberté, que foi lançado no princípio de 1958, cuja finalidade era tirar da prisão os objectores e obter um estatuto legal que os defendesse. Com o jornal, Lecoin criou um comité de socorro aos objectores de consciência, em que Breton colaborou. A campanha teve peripécias, imaginação e vitórias estimulantes, como a libertação ainda em 1958 de nove encarcerados. Conseguiu por fim obter o estatuto, mas só ao fim de cinco anos, em 1963 e depois duma greve da fome que durou mais de vinte dias e que deixou Lecoin, aos setenta e cinco anos em estado de coma. Conhecem-se duas intervenções de Breton no processo: primeiro, a alocução que fez num dos comícios a favor dos presos, a 5 de Dezembro de 1958, sala Mutualité, Paris, e que foi dado à estampa no jornal de Lecoin; segundo, o curto texto que escreveu, durante a greve da fome do anarquista, que ficou inédito durante muitos anos – só foi dado à estampa em 2008 – e de que ficaram duas versões manuscritas. Também estes dois textos merecem tradução integral em português, que aqui, pela sua dimensão, não podemos restituir. Em seu lugar deixamos extractos ilustrativos.
Do primeiro, um longo texto, no género da alocução em favor dos sindicalistas da C.N.T., escolhemos um período, em que Breton discorre sobre a consciência. Assim: A consciência, essa força individualista, sim, por excelência libertária, que em presença de tal ou tal situação nos introduz, isto se o caminho não estiver impedido por nossa culpa, no mais secreto de nós mesmos e nos impõe de nos empenharmos contra aquilo que temos por escândalo; a consciência, é aquilo que nos une à vocação do homem, a única que em última visão podemos tomar por sagrada: a de nos opormos, sem olharmos às consequências para a nossa pessoa, a tudo o que atenta à mais profunda dignidade da vida. Do segundo – que serviu talvez a Breton para prestar, junto da imprensa, apoio ao jejum de Lecoin, e inédito ficou até à publicação das obras completas (Gallimard, 1988-2008) – tiram-se alguns períodos. Estes: Que o maior erro (…) dum revolucionário seja o de ultrapassar a idade de cinquenta anos, eis o que (…) Lenine confiou a Trotsky (…). / (…) / Foi todavia além desses limites que Louis Lecoin, mais exigente do que nunca, tomou em mãos o triunfo da causa que fez sua. Sacrificara já doze anos de liberdade. Muito abalado (…) pelo desaparecimento da sua companheira, o seu primeiro gesto (…) foi o de se dar por inteiro a esta causa. Data desse momento a fundação de Liberté, jornal “social, pacifista, libertário”, no qual os seus amigos bem sabiam que ele iria empatar todos os seus magros haveres. Mas ali estava um imperativo absoluto: agir de tal modo que o caso dos objectores de consciência pudesse ser reconsiderado, arrancando-os de vez às enxovias e dando-lhes um estatuto que os livrasse da obrigação militar em troca dum serviço civil./ No curso dos cinco anos de existência do jornal sabe-se que muitas promessas apareceram. Seriam para cumprir? Para duvidar era preciso não ser Louis Lecoin, quer dizer, o desinteresse e a generosidade em pessoa. (…) / De decepção em decepção, chegou porém o dia em que a fé na palavra dada deixou de ser suficiente. Foi quando a amnistia ousou dizer o seu nome (…) que Lecoin compreendeu que o mais verosímil era os objectores ficarem de fora, pese embora a amnistia se estender aos piores criminosos. Diante duma tal negação da justiça, não lhe restou senão escutar a voz interior que lhe ordenava que se empenhasse na prossecução do seu fim sem olhar a custos. / (…) /.
Na foto: Em 1938, Breton, Rivera, Trotsky e Jacqueline.
(Continua)


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