CONTOS & CRÓNICAS – “Maria Alice” – por Margarida Ruivaco

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Maria Alice cedo aprendeu a somar anos à sua idade.

Nascer a meio dos anos setenta não era vantagem  suficiente no meio dos da sua idade, pelo que, quando em oitenta e sete mudou de escola, para o sétimo ano, somou dois anos, iludindo os curiosos pela novidade da turma. Tenho catorze, chumbei na primária por estive doente, e assim calou a garotada.

Ter catorze dava  direito a acesso aos rapazes do nono ano e um corpo crescido não deixava lugar para qualquer dúvida. Captava toda e qualquer conversa dos mais velhos, das mais sabidas,e construia, secretamente, um repertório pronto a usar em qualquer situação.

Ainda que, inexplicavelmente, ninguém se recordasse de a ter visto aqui ou ali, fazendo e acontecendo, como nas histórias que contava, com ar entendido, olhares marotos e meias conversas que sempre se associaram a “para bom entendedor…”. Começava as frases, lançava um olhar ordinário e as coisas ficavam-se por ali com um risinhos, e todos riam também, percebessem ou não o final das mais escabrosas revelações. A rainha do boato, do diz que disse, do diz que fez.

A realidade de Alice mudava no minuto em que entrava no carro da mãe que a esperava à saída da escola, com quem ia ao supermercado, a quem ajudava na cozinha e na arrumação.

Todas as sextas-feiras jantava com a avó, não ia à sessão do cinema que estreara na quinta.

Todos os sábados mudava as roupas da cama. As horas que dizia passar na casa de banho eram a limpá-la, de cima a baixo, não em sessões de beleza e maquilhagem. E a noite do sábado terminava em pijama, no sofá, não no bar ou na discoteca, factos frequentes nas suas dissertações para bandos de garinos ansiosos por crescerem depressa.

À puta que fazia e acontecia, como lhe chamavam as rebarbadas com dor de corno, tão pouco alguém lhe pusera um dedo em cima, quanto mais o corpo todo…

Mas Alice prosseguia na sua ascensão social meteórica, e quando
caía em si e na sua mentira pegada, apesar do medo, não via outra hipótese senão em continuar a enrolar os trouxas que esperavam pela segunda-feira como quem espera por um copo de água no dia mais quente do ano.

Até que Alice acabou o secundário, com as boas notas devidas a quem estudava diariamente e revia a matéria ao fim de semana, e com os dezoito acabadinhos de fazer viu-se em Lisboa, numa residência de estudantes comparticipada pela bolsa de estudo que tivera o mérito de conquistar.

Eram os anos noventa a bombar, a novidade da capital, e uma mesada que fazia esticar na medida das suas conveniências…

E foi assim, entre o anonimato de caloira e a intenção de continuar a somar impressões, que se deu a primeira festa a que foi.

A produção foi apurada, com a mais mini-mini-saia e um saltos altos dolorosos, e laca que dava para aguentar de pé a vela de um barco. A maquilhagem, comprada no indiano da esquina foi testada e copiou os looks mais vistosos das revistas.

A garotada saiu ao final da noite, e ceou até tarde num  dos tascos da feira popular. Provou vinho, pela primeira vez, e logo ali decidiu manter-se fiel ao sumo de laranja, ao lado do copo cheio, (sempre cheio, nunca despejado…mas também já ninguém dava por isso).

A noite prosseguiu entre metro e eléctricos, com um frio brutal nas pernas, pois o Outono já estava de resto, e a sentir dificuldade em conseguir acompanhar a pedalada dos colegas.

Depois de entrarem e saírem de bares, adegas, clubes, tudo o que tivesse nome a piscar na parede e música a passar pelas paredes e portas escuras, e não tivesse consumo obrigatório, alguém decidiu esperar pela madrugada ali para os lados de Alcântara. A noite ia longa, pejada de cheiro a fumo, a álcool e a caramelo e, sóbria, Alice absorvia as dores nos pés, os locais, os sons, e forçava-se a pensar que era por aquilo que tinha esperado desde os doze anos.

A espera para entrar foi um tormento de frio, mas Alice sentiu-se reconfortada ao passar os primeiros cortinados de veludo. Estava ali, de carne e osso, mais real que todas as histórias. Entre veludos pretos e vermelhos e candelabros gigantes…como nos seus parlapiers afectados dos últimos anos.

No minuto seguinte, sentiu o estômago revolver-se. Ainda não  passara o hall, e à sua direita, dois machos atracados faziam as honras da casa, uma agarração desmedida de mãos metidas em tudo quanto é sítio um do outro, com as bocas fundidas, sobrando apenas o bigode para amortecer tal choque violento. Alice arregalou os olhos, respirou fundo e seguiu os resistentes da noite, tentando perceber o que acabara de ver, se era verdade, ou se eram só as primeiras cinco e meia da amanhã acordadas da sua vida a falarem por si. Sentou-se num cadeirão vermelho, num dos cantos fumarentos do salão e tentou olhar para as colunas, para o preto das paredes, o brilho dos espelhos, os dourados do balcão…

Do balcão … onde enrolados, uma sanduíche mista de dois homens e uma mulher, davam espetáculo para quem queria e quem não queria ver e para quem já não sabia mais para onde olhar…E, de repente, Alice já não sabia quem era quem, quem mexia aonde, quem fazia o quê e, de repente, Alice já nem sabia bem se eram dois homens e uma mulher ou se eram três homens, e se as outras mulheres que via eram homens ou mulheres, e se os homem que via eram homens ou mulheres, e se as avestruzes emplumadas que via eram homens ou mulheres…e saiu a correr, com falta de ar, desembolsando um consumo que não bebeu e pagando um táxi de volta a casa, sem esperar por ninguém.

O banho quente que tomou de seguida limpou-lhe o corpo e o cabelo dos cheiros de fumo, mas não conseguiu limpar a alma e o desassossego, nem sequer as dores na planta dos pés. E as treze horas que dormiu também não.

Acordou a tempo do jantar de sábado, mas nem um chá lhe caiu bem, pelo que voltou a enrolar-se na manta agarrada a um peluche, tentando digerir a noitada.

Fez a contas. Quatro contos e oitocentos numa noite. Deu o dinheiro por bem empregue. O mundo que ela imaginava, tão diferente do mundo real. O mundo que ela havia apregoado ao bando de iludidos, sem que alguém a contradissesse. Fez as contas de novo. Sim, tinha sido bem empregue. Tão cedo, e enquanto se lembrasse, não voltaria a precisar de gastar nem isso nem nada parecido. Numa noite ficara exactamente a saber que o seu modelo desejado de vida era apenas e tão somente o modelo que não lhe convinha.

Nesse sábado à noite, entre dores de barriga, palpitações e medos, Alice tirou dois anos à idade e decidiu começar de novo. Quando a mãe telefonou às nove e meia da noite, deu  com a filhinha deitada na cama a estudar para os exames, e até aproveitou para lhe recomendar que, de vez em quando, devia sair com as amigas.

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