EDITORIAL – Divergências insanáveis ou meras diferenças de estilo?

Imagem2Após uma reunião de três horas entre o primeiro-ministro e o secretário-geral do Partido Socialista, os dois líderes não chegaram a um acordo sobre o pós-troika. António José Seguro declarou a inviabilidade do pacto solicitado por Cavaco Silva, dadas as «divergências insanáveis sobre a estratégia para equilibrar as contas públicas. Era um desfecho previsível – o PSD, com Cavaco à cabeça, quer um pacto que salve o partido de uma derrota eleitoral já em 25 de Maio. O PS, ou seja, os actuais donos do partido, prevendo uma vitória, não querem estabelecer pactos.

Como ainda há dias lembrávamos numa crónica, em 1991, o Partido Socialista organizou um colóquio sobre o tema «Democracia ou Partidocracia», orientado pelo Professor Eduardo Lourenço, em que participaram, entre outros, os Professores Alfredo Margarido, Fernando Pereira Marques, António Reis, Manuel Vilaverde Cabral, Guilherme de Oliveira Martins, João de Almeida Santos. Uma revista «de reflexão e crítica» que, pela mesma época, a Fundação José Fontana editava, a Finisterra, publicava algumas dessas comunicações. Eram, na sua maior parte, intervenções de valioso conteúdo, reflectindo a profunda capacidade de autocrítica que o Partido Socialista apresentava há pouco mais de vinte anos. Embora já se começasse a esboçar a criação do «bloco central», como era diferente a parte do PS que reflectia, o hemisfério activo do seu cérebro, diferente de um PPD-PSD preso à herança de Francisco Sá Carneiro, homem que não produziu uma ideia que valha a pena recordar, mas que apesar disso, conseguiu ser a cabeça mais brilhante do partido que co-fundou.

O que prova não ser a ausência de ideologia que fragiliza uma organização partidária que lute pelo poder. O PSD nunca a teve e nunca lhe sentiu a falta; o PS tinha-a, mas tem estado a desembaraçar-se de algo que só servia para atrapalhar. Como se faz aos trastes velhos, a ideologia socialista foi parar ao sótão. Hoje é o que se vê – tácticas diferentes e estratégias iguais (Seguro não deve conhecer as fronteiras semânticas de ambos os conceitos).

Hoje, apesar da guerra das palavras e das denúncias mútuas de corrupção, de criação de clientelas, de caciquismo, de corrupção – acusações que, na maior parte, não serão injustas – os dois partidos são praticamente iguais. Diferenças, se as há, só em meras questões de estilo.

1 Comment

  1. Absolutamente exacto! Esbatidas as diferenças, a questão emergente é “o que é que faliu”? Os dois partidos em causa, ou o modelo pseudo-democrático e verdadeiramente partidocrático? lol

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