POESIA AO AMANHECER – 406 – por Manuel Simões

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MARCOLINO CANDEIAS

                                               ( 1952 )

            AQUI NÃO TEM SABIÁ

            Para a Deka, meu sabiá quotidiano,

                minha cachaça e meu quindim.

 

                Não tem sabiá aqui nem tem palmeiras. Aqui

            [rapadura não tem meu bem

            nem pé-de-moleque nem brigadeiro metido

            em tudo quanto é sítio. E mesmo

            teu pezinho de jabuticá meu bem

            já virou quindim

            lá bem no meiinho da chacrinha da memória.

 

            Aqui saudade às vezes tem. Te bate negra.

            Mas não dá princesa pra chamar a polícia.

            Isso são uns bem caipira nem sabem o que é

            [cachaça. Tudo

            uns tatu velho que não tem mais jeito.

 

            É quando de Chico pra Gilberto e de Elis pra

            [Bosco tu viras sagui

            e por toda a casa

            uma orgia de orixás

            bota uma alegria danada que desconchava direito

            esta minha sisudez de quem nasceu no mar.

 

            Aqui meu bem não tem sabiá não.

            Aqui tem só uma gracinha sorrindinho.

             Tem você, né?

             (da antologia “Nove Rumores do Mar”)

 Poeta açoriano. Incluído em diversas antologias, desde “14 Poetas daqui e d’agora” (1972) a “Os Nove Rumores do Mar. Antologia da Poesia Açoriana Contemporânea” (1996). Obra poética: “Por ter escrito amor” (1971), “Na distância deste tempo” (1984).

 

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