CONTOS & CRÓNICAS – Primavera 2014 – por Eva Cruz

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A chuva não nos deixa. Teima em bater no vidro da janela. Lá fora, sempre a mesma neblina cinzenta e triste. O céu ameaça a terra. A terra aninha-se no seu canto, fustigada pelo vento. O mar revolta-se, salta do seu mundo e invade-a como numa batalha. Regressa ao leito, triunfante. Já lá vai o tempo em que ele a beijava em ondas brancas e calmas de espuma.

 Deseja-se a Primavera, o regresso do sol a entrar na janela, o reinício. A cor espreita, nos sentidos e nos desejos.

 Na sala de espera do posto médico cheirava a pano molhado, guardado em armários de naftalina. Os ocupantes tossiam ao desafio, arrancando baixos e agudos aos brônquios entupidos.

Alguns idosos, outros novos. Todos com o olhar triste do tempo e dos tempos.

Mãe e filha, com pouco mais de um metro cada, sem dentes, metidas num kispo desbotado e almofadado de refegos, faziam lembrar bonecos Michelin.

 Um outro paciente, novo, de cara tão magra e afilada era pouco mais que uma silhueta. Talvez um figurante de Shakespeare, ou, apoiado na muleta, um peregrino de S. Tiago.

 Destacava-se naquele cinzento uma mancha de cor e lavado. Duas mulheres, provavelmente de Leste, atléticas e asseadas, esperavam pelo atendimento. Folheavam uma revista de moda. Na capa, um vestido florido de Primavera. Moda Primavera 2014 em grandes letras.

Mãe e filha espreitavam a capa de soslaio. A filha tinha a perna curta e roliça toda empanada, esticada e apoiada na cadeira da frente.

A Moda Primavera é tanga e pés descalços. Pelo menos para alguns.

Os únicos interlocutores eram a filha, a mãe e o rapaz. Os outros sorriam e quando muito acenavam com a cabeça em sinal de concordância.

As estrangeiras folheavam a revista e lá estavam as tendências a marcar as roupas, sapatos e acessórios. Um look pretty. Tudo parecia perfeito. A realidade e a fantasia tão distantes uma da outra!

O rapaz foi chamado pelo altifalante. Ao levantar-se, não se aguentou e foi preciso ampará-lo para não cair. Com a ajuda de

uma enfermeira lá se foi, deixando atrás de si um rasto de mau cheiro, indefinido. O cheiro a pobreza.

Vive debaixo da ponte. Tem trinta anos.

Ao lado, a revista mostrava o pretty look , um verniz a encobrir a paleta descorada da realidade.

A Moda Primavera será de facto de cor intensa para uns, para outros um eufemismo, nude. Não há meias medidas.

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