GIGANTESCAMENTE SIMPLES – por Júlio Cardoso

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… e no entanto ainda se vislumbram algumas pequeninas luzes bruxuleantes no panorama do teatro português.

– Na abertura das “Correntes D´Escrita” na Póvoa de Varzim, deste ano, Eduardo Lourenço dizia que a política “já não é real” acusando uma espécie de vampiro de provocar o apocalipse indireto. – Ora acontece que perante a penúria de meios, de perspetivas curtas, de júris de total cultura inculta sobre gestão de teatro profissional, o teatro, como profissão em Portugal, está absolutamente aturdido num tempo de cinzentismo tal que se aproxima mesmo de uma escuridão apocalíptica.

Hoje, a falta de organização do Teatro é tal, que vemos amadores – ou, talvez semiprofissionais, porque são remunerados – na mesma linha de gente que estudou, investiga e trabalha 10 – 12 ou mais horas diariamente no âmbito de grupos ou companhias, mínima e medianamente estruturadas com história e implantação, publicamente conhecidas. Acontecem funções teatrais e algumas até com coberturas razoáveis na imprensa, que fazem lembrar um canino rafeiro quando se junta a coelheiros ou perdigueiros de raça e de acentuada escola e que, se não forem afastados, escorraçam a caça. Pois no teatro está a acontecer que a escassez de público deve-se a muita coisa, mas espetáculos há e muitos que, nos são apresentados como lebres e não passam de gatos. Isto porque boas maquias dos orçamentos serem absorvidas pela publicidade! Daí que este nosso Dia Mundial deveria ser aproveitado para pensarmos nos dias que passam e projetarmos um futuro melhor. É evidente que a “classe” (?) está toda dividida e grupos e grupinhos vão pensando tão-somente na sua courela. E isto tem sido o grande trunfo da classe dirigente.

Desvalorizou-se completamente o assistente de encenação e aqui poderia acontecer um bom local de formação de encenadores. Perdeu-se o total respeito pela direcção e temos vindo a assistir a textos debitados e a desconjuntados movimentos corporais com passinhos para aqui e para ali e, depois de toda a barafunda, o público a sair pior do que quando entrou. Ainda não passou muito tempo que profissionais se recusavam a trabalhar com pessoas sem curriculum suficiente para a direcção de obras teatrais. Nos tempos que passam, e talvez por absoluta necessidade de trabalho, vamos assistindo a jovens talentosos e até atores de reconhecidos méritos, sujeitarem-se a ser dirigidos por aventureiros que não temem qualquer exposição da sua desajeitada sensibilidade e de um inconsistente saber.

A extensão dos problemas do teatro português e a gravíssima crise porque passa, naturalmente que não poderão ter cabimento em tão exíguo espaço, de tantos e dos mais diversos assuntos. Indiscriminadamente, falemos de forma sucinta do Teatro de Amadores. Penso que os Amadores são os primeiros centros da mobilização de públicos para o Teatro. Mas, ao longo dos anos têm sido votados completamente ao ostracismo. As centenas de grupos teatrais Amadores devem repensar e tentar refundir a APTA – Associação Portuguesa de Teatro de Amadores e arrancarem com sólida pujança para um efetivo movimento de Amadores Teatrais.

Talvez o Sindicato possa desencadear debates sobre a necessidade do Teatro Português ser organizado, julgo mesmo ser um problema candente. Vamos a isso, o tempo urge porque o Teatro definha.

 

Júlio Cardoso

ator/encenador

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