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Eugene Ionesco colocou perante os espectadores do seu teatro um espelho que devolveu aos olhos de quem soube descodificar os diálogos sem sentido das suas peças a imagem cruel de uma sociedade anquilosada e perdida nos labirintos de rituais tão sem sentido como as falas das suas personagens . Teatro do absurdo – o retrato de uma sociedade absurda.
Eugene Ionesco (26 de Novembro de 1909 – 28 de Março de 1994) foi um dramaturgo francês, de origem romena, que se
estabeleceu em 1940 em França. A sua primeira peça, A Cantora Careca (1950) é uma comédia num só acto, que o autor classificou como anticomédia e que se caracteriza pelo seu surrealismo verbal, baseada no absurdo. Características que se vieram a manter em todas as suas obras. É uma forma de teatro moderno que utiliza para a criação do enredo, das personagens e do diálogo, elementos do ilógico, com o objectivo de reproduzir directamente o desatino e a falta de soluções em que estão imersos o homem e sociedade. Foi reconhecido pelo crítico norte-americano Martin Esslin, como o introdutor do “Teatro do Absurdo” ou“Anti-teatro“. Numa das cenas referidas como das mais cómicas da “Cantora Careca”, dois estranhos dialogam sobre banalidades como o tempo, o lugar onde vivem, quantos filhos têm para, surpreendentemente, descobrirem que são marido e mulher.
O desenvolvimento das personagens e o pensamento do teatro tradicional não aparecem nas suas peças, que expressam a existência sem sentido do homem moderno num universo governado pelo acaso.
Na peça O Novo Inquilino aborda-se modernidade tecnológica, com suas implicações sobre as pessoas, numa crítica aguda do totalitarismo e do conformismo. Aqui, temos de novo um só acto, em que o tema é de uma mudança de casa. O mobiliário do inquilino ganha vida e autonomia. Depois de um início de cena, em que o vazio impera, entra uma porteira, agitando um molho de chaves, falando sem parar, preenchendo o espaço, palreando num derramamento de palavras sem sentido. Entra depois o inquilino – denominado O Senhor – e depois, os funcionários que vêm trazer os móveis. E se, de início eles aparecem pelas mãos dos homens, depois chegam sozinhos, e cada vez mais rápido, confundindo o espectador. Móveis que acabam por sair do apartamento, descer as escadas e saírem para a rua e o rio Sena.
Primeiro moço-de-fretes – E não é tudo. Há mais ainda.
Segundo moço-de-fretes – A escada está cheia. Não se pode circular.
O Senhor – O pátio também está cheio. A rua também.
Primeiro moço-de-fretes – Os carros já não circulam, na cidade. Tudo cheio de móveis.
Segundo moço-de-fretes (para o Senhor) – Não se pode queixar, o Senhor ao menos tem um lugar sentado.
Primeiro moço-de-fretes – Talvez o metro funcione.
Segundo moço-de-fretes – Oh, não!
O Senhor (sempre do seu lugar) – Não. Todos os subterrâneos estão bloqueados.
Segundo moço-de-fretes (para o Senhor) – O senhor sempre tem móveis! Atravanca o país todo!
O Senhor – O Sena já não corre. Bloqueado, também. Acabou-se a água.
Só consegui localizar, representada em Portugal, pelo Teatro de Bolso, em Dezembro de 1987, a representação desta peça. A Cantora Careca Desrespeito penso que terá sido mais vezes e uma junção de duas das suas peças (O Mestre e A Lição) deu origem, em 2009 à Lição do Mestre, pela companhia ArteViva no Teatro Municipal do Barreiro.

