PELO DIREITO À UNIDADE EUROPEIA, PELO DIREITO A UM IALTA II OU DA DESESPERANÇA DE HOJE AO DIREITO À ESPERANÇA, AMANHÃ – QUID DA UCRÂNIA CONTRA A TIRANIA DOS MERCADOS? Por PHILIPPE BÉCHADE

Selecção e tradução por Júlio Marques Mota

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7. Quid da Ucrânia contra a tirania dos mercados?

 

Quid de l’Ukraine face à la tyrannie des marchés ? (Ph. Béchade)

La Chronique Agora   http://la-chronique-agora.com/

18 Março  de  2014

Ucrânia - 7

 

 

 

Ao apagar os meus écrans dos valores bolsistas na sexta-feira  passada, parti com uma enorme dor de estômago.  Tendo em conta as ameaças ocidentais cujas consequências eram anunciadas como  terríveis, os accionistas russos (e todos sabem que a economia local assenta  sobre eles) arriscavam-se a viver  uma segunda Segunda-feira negra  a seguir ao dia  4 de Março.

Enquanto que floresciam no  Ocidente os comentários dignos das horas mais intensas do  maccarthysmo a propósito das sombrias operações do Império do Mal soviético, o voto ucraniano preparava-se na calma e sem incidentes.

E apesar de um resultado massivo  a favor da ligação à Rússia (96% e mais uns pozinhos), não  ouvi nenhum dirigente  ocidental a  denunciar umas eleições vigarizadas.

Não há registo de  flagrantes irregularidades, de problemas nas urnas de voto, de intimidação dos eleitores: é um verdadeiro escândalo, as autoridades locais não respeitaram mesmo — por antecipação — as más práticas que mancham a maior parte das eleições na Rússia.

 Poder-se-ia  imaginar o  pior: o Kremlin inspirando-se  no  voto na Crimeia poderias semear  a confusão nos Ocidentais… onde o resultado negativo das consultas relativas aos tratados europeus foi alegremente ignorado (mas isto já é  perfeitamente legal) pelas elites de Bruxelas.

▪ Não há  segunda-feira negra na  bolsa de Moscovo

Seja como for, em  Moscovo, o índice Micex (estabelecido em rublos) subiu de 3,75%. O RTS pelo seu lado  ( estabelecido em dólares)  subiu  de 4,9% após uma queda de 28% desde o 1º de Janeiro.

O próprio rublo  subiu de  1,5% após ter caído de 12% face ao euro  em 10 semanas. O euro valia  50,6 rublos  e 36,30 rublos valiam  um dólar. Os sherpas dos mercados por conseguinte não desencadearam uma  grande ofensiva contra a divisa russa — que teria induzido um risco de inflação massiva enquanto que esta última excede já os 5%.

.Mas também e sobretudo, isso poderia ter  conduzido  Moscovo a saltar sobre a ocasião de vender maciçamente dólares… e criar como prometido  fortes turbulências sobre o Forex (mercado dos câmbios). Atacando-se aos activos russos, os Ocidentais correriam o risco  de  sofrer um efeito bumerangue destruidor .

Porque se os accionistas russos não tinham mais grande coisa a perder em  caso de turbulências dos mercados, o mesmo não acontecia com os detentores de uma carteira bolsista  em  Wall Street, enquanto que todos os índices americanos rondam a  estratosfera.

Retornemos  por conseguinte à  Terra, tal como os mercados financeiros na segunda-feira.  Os russófonos  da Crimeia primeiramente votaram  a favor de   uma ligação  histórica e quase carnal com a Rússia. Isso, mais do que a favor de  um sistema económico florescente e politicamente democrático em que o povo da península teria mais a sua palavra a dizer  do  que sob a férula de Victor Ianoukovitch.

▪ Um processo definitivamente fechado novamente?

O referendo de domingo não poderia  ocultar o problema dos tártaros  da Crimeia (12% da população) que boicotaram maciçamente o referendo. O seu principal representante, Moustafa Djemilev, repetiu a  Vladimir Putin  que reconhecia a legitimidade do novo poder ucraniano (contrariamente ao mestre do Kremlin) e só entendia  submeter-se às decisões Kiev… que do seu lado não deixava de martelar que o referendo do fim-de-semana continua a ser ilegal e o seu resultado juridicamente nulo.

Apesar dos protestos ocidentais de pura forma,  a Duma deverá desde esta terça-feira  aprovar  a anexação da Crimeia à Federação Russa… e o rublo foi apresentado desde ontem como a segunda moeda oficial da província.

Tudo isto obviamente analisado cuidadosamente nas  outras províncias da  da Ucrânia de língua russa, de que algumas também não reconhecem  a autoridade política e fiscal  de Kiev.

Enquanto isso, os mercados funcionam como se o dossier  ucraniano tenha sido encerrado  com o reconhecimento tácito pelo Ocidente da soberania russa na  Crimeia… e como se também não existisse o risco de secessão de outras províncias.

As primeiras medidas tomadas pelo Parlamento de Kiev – perante uma situação de quase falência do país – correm o risco de não serem aceites unanimemente nas províncias orientais (onde estão localizadas muitas fábricas de armas pertencentes a Rússia): pensões divididas por dois, revogação dos subsídios para as minas de carvão, aumento imediato dos preços de energia .

Um tirano foi expulso… mas a propaganda russa em breve convencerá as pessoas de língua russa a não se curvarem á tirania dos mercados.  Estes mesmos mercados tem o país preso pela garganta e podem  impor-lhe  qualquer medida destinada a “tranquilizador” os credores. Isto para já não falar muito do ouro  ucraniano  que já voou para os Estados Unidos e está já muito longe de  regressar  para os cofres do Banco Central, em Kiev.

No dia em que  Vladimir Putin  denunciar  “o vôo do ouro do povo” pelos ocidentais, é quase certo que a situação se irá incendiar e o processo de fragmentação da Ucrânia será desencadeado. Os mercados deixarão então de fazer como se nada  se tenha passado mas apostamos que os insiders não deixarão de vender  enquanto que os media  nos continuarão a martelar que tudo está bem.

Então, acima de tudo, continuem  a depender do comportamento de ouro e  da prata-metal ao invés do CAC 40 e o S &P 500: o que acontece  com os metais preciosos é hoje bem mais fiável do que as  ocultas estratégias implementadas pelos estrategas  de Wall Street através dos derivados de acções.

Philippe Béchade, La Chronique Agora, le 18 mars 2014

http://la-chronique-agora.com/ukraine-marches/QUID

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