António Cândido Franco traça-nos com objectividade a história da revista A Ideia de que é actual director. Um percurso de quatro décadas narrado num texto que pela sua extensão segmentámos e que transcrevemos do artigo de abertura do número duplo 71/72, editado em Novembro de 2013.
A revista
A Ideia completará em Maio do próximo ano quarenta anos de vida. Ao longo de quatro décadas publicou setenta e dois números, o que dá pouco menos do que dois números por ano. Para além dos números, a revista deu à estampa ainda uma quantidade apreciável de suplementos, de brochuras, de desdobráveis, de comunicados de imprensa e de outras notas impressas. Para uma noção deste volume do trabalho, deixe-se o balanço que a revista fez no momento em que passavam dez anos sobre a edição do primeiro número (n.º 32-3, Abril, 1984, p. 59). Aí se diz que a revista, entre 1974 e 1983, publicou trinta e um números (incluindo sete duplos, num total de vinte e quatro tomos), oito brochuras, vinte e oito panfletos e desdobráveis, vinte e cinco comunicados à imprensa, um postal, um autocolante e uma serigrafia (Mário Botas).
A propósito deste aniversário, a revista A Ideia promoveu no Teatro Vasco Santana (Feira Popular), em 29 de Novembro de 1984, o espectáculo “10 Anos d’A Ideia”, em que estiveram presentes cerca de cento e cinquenta pessoas. Entre a assistência lembramo-nos de ver Mário Cesariny e Ruy Cinatti e entre os que subiram ao palco António Macedo e Glicínia Quartim. O cartaz pertenceu a Mário Cruz; o evento teve balanço nas páginas da revista (n.º 36-37, Junho, 1985, p. 112).
Ao longo de quatro décadas a revista apresenta por força diferenças. Registe-se antes de mais a existência de duas séries, a primeira entre 1974 e 1991, num total de cinquenta e cinco números em dezoito anos, e a segunda entre 2001 e o presente ano, com dezasseis números em treze anos. Entre 1992 e 2000 a revista cessou a edição normal, editando apenas uma folha anual, não destinada a venda comercial, sem preço de capa, sem série e sem número, destinada em exclusivo a reservar o título da publicação. Não obstante, quer na primeira série quer na segunda, não se depara com qualquer homogeneidade e dentro de cada uma das séries encontram-se diferenças assinaláveis, a começar pelos subtítulos. Assim na primeira série a revista surge em Paris com o subtítulo de órgão anarquista específico de expressão portuguesa, que manterá até ao número 10, Primavera de 1978, num conjunto de dez números, ao longo de cinco anos. O seguinte, o décimo primeiro, Outono de 1978, troca o subtítulo anterior por revista de cultura e pensamento anarquista , que se manterá até Outubro de 1989 (n.º 53), num total de quarenta e três números, em doze anos. No número seguinte, de Maio de 1990, novo subtítulo, desta vez revista libertária , que se manterá até 2012, número 70, em dezassete números publicados ao longo de vinte e três anos. Com o presente número, de 2013, mais uma vez se altera o subtítulo para revista de cultura libertária . As folhas intercalares entre as duas séries, vindas a lume entre 1993 e 2000, não ostentam título secundário. A revista apresentou assim quatro subtítulos diferentes (1974; 1978; 1990; 2013).
Em dois casos a alteração coincidiu com a mudança de director, como sucedeu na passagem do número 53 para o seguinte, ano de 1990, em que Miguel Serras Pereira substituiu João Freire, e agora sucede neste número; no caso que fica de fora, relativo ao Outono de 1978, a mudança do título secundário não coincidiu com qualquer mexida na direcção da revista, que tinha então por director Carlos Abreu. Abreu assumiu a responsabilidade da revista em Fevereiro de 1976 (n.º 4) e permaneceu na função até Junho de 1980 (n.º 17). A fundação, em Paris, pertenceu a João Freire e a primeira direcção portuguesa, no terceiro número, a João Oliveira; antes, em Paris, nos dois primeiros, a revista teve apenas um responsável editorial (Germain Parès); Freire, o fundador, assumiu a direcção no Outono de 1980 (n.º 18-19), abandonando-a em 1990, dando lugar a Serras Pereira, para de novo regressar em 2001 e de novo a abandonar em 2013. As folhas anuais, dadas a lume no final do século passado e que salvaguardaram o título, tiveram também a direcção de João Freire.
As estas flutuações juntam-se as modificações de formato. A revista começou por ser um desdobrável publicado em Paris e evoluiu depois, ainda em França, no final de 1974 (n.º 2), para um caderno agrafado, de capa cartonada, a uma cor, montagem e composição artesanais, ilustrações curtas, pouco mais que as fotografias dos biografados. Os meios de difusão eram parcos e a circulação circunscrevia-se às assinaturas e à divulgação militante. Essa primeira fase, a coincidir sobretudo com a direcção de Carlos Abreu, durou até 1980 (n.º 18-19), momento em que Freire assumiu a responsabilidade da revista; com o número duplo de 1980, as alterações gráficas foram grandes. A publicação, sem tocar nas dimensões, abandonou a confecção manual, ganhando volume e composição profissional. A revista até às mudanças de 1980 apresentava em média cerca de três dezenas de páginas – chegou a ser uma brochura de vinte e seis páginas (n.º 9) – e depois delas passou sempre da centena, chegando mesmo à centena e meia com o número duplo de Dezembro de 1982 (n.º 26-27). Na nova fase o regime de distribuição da revista não se alterou assim tanto em relação ao anterior, se bem que o número de assinantes, a par dos colaboradores, se alargasse. Sobre a tiragem encontramos informação em Abril de 1982 (n.º 24- 25, p. 116), apontando para uma tiragem de mil exemplares, superior pois à anterior.
(Continua)

