A REVISTA “A IDEIA” EM PERSPECTIVA – IDEÁRIO E ITINERÁRIO – 3- por António Cândido Franco

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(Continuação)

Paga a pena perceber como se deu tal processo. O tipo de revista atrás descrita, durou até ao Outono de 1977 (n.º 7); o modelo inicial manteve-se pois intacto cerca de três anos. O número seguinte, temático, “Ecologia & Anarquia”, é porventura o momento em que o paradigma abriu as primeiras fissuras. Em lugar de se insistir no património anarquista clássico, centrado em exclusivo na luta de classes, temos um tema novo, a ecologia. Com esse número surge pela primeira vez no horizonte da revista algo mais do que aquilo que decorria de Bakunine, de Malatesta e Berneri ou dos momentos de maior vigor colectivo das revoluções mexicana, russa e espanhola. Essa primeira fissura tem porém um valor quase só simbólico; o que por ela então passa é muito menos importante do que aquilo que fica em aberto, à espera de nova oportunidade. Logo depois (n.º 11, Outono, 1978), a revista altera o subtítulo, que passa a revista de cultura e pensamento anarquista , sem com isso, como se diz no editorial, se desviar do projecto inicial. É também nesse número que surge um texto programático, “O que nos Distingue”, sem autor, que retoma aspectos do primeiro editorial, incluindo as referências a Bakunine, Malatesta, Berneri e às revoluções mexicana, russa e espanhola. O texto será dado à estampa, sem mudanças a notar, em cada número da revista até Novembro de 1980 (n.º 18-19), neste último já dentro das mudanças de formato e de paginação atrás noticiadas.

Assim como assim aquilo que chegara à revista com a ecologia não mais sai; a revista mostra-se aberta a linhas inovadoras, que não entram nas contas do velho anarquismo. Exemplo é a capa do número seguinte (n.º 12, Inverno, 1979), que, tendo como pano de fundo um tema indiscutível do anarquismo, federalismo, pulveriza-o depois assim: índios, ibéria, madeira, occitânia, autonomia, europa comunidades, perversões nacionalistas, açores . Ou a do seguinte (Verão, 1979), talvez ainda mais marcante, em que o lema lutas de hoje e amanhã, que a ocupa, é identificado não com as lutas do agente clássico transformador do anarquismo, o proletariado, mas com as aspirações dos pacifistas, dos ecologistas e das feministas.

Chegaram depois, em Novembro de 1980, as alterações formais, quer no formato, quer na direcção, sem que isso pareça corresponder a qualquer diferença de ideário. O tema forte desse número é o sindicalismo, com uma mesa-redonda em que participa Emídio Santana, um artigo de Juan Gómez Casas, o primeiro secretário-geral da C.N.T. depois do fim do franquismo, um artigo de Acácio Tomás de Aquino sobre o Sindicato Único da Indústria da Construção Civil, um dos mais activos da antiga Confederação Geral do Trabalho, um trecho de Neno Vasco, porventura o mais importante teórico do anarco-sindicalismo português, e duas biografias, a de Alexandre Vieira e a de Fernand Pelloutier, este pai do sindicalismo de acção directa, aquele pai do sindicalismo operário em Portugal.

Na Primavera de 1980 (n.º 20-21) o quadro programático “O que nos Distingue”, presente desde 1978, é substituído por novo texto, “Plataforma Editorial”, mais centrado na edição darevista, com menos preocupações ideológicas, presentes todavia na abertura, onde se aponta a vontade de compreender a realidade social e de nela agir no sentido de soluções libertárias. Os anteriores alinhamentos desaparecem, dando lugar a alusões gerais, que extravasam o anarquismo, como liberdade e solidariedade. Mais do que uma revista de propaganda, A Ideia propõe-se um espaço de reflexão sobre os mais variados temas contemporâneos, sociais, ecológicos, culturais, económicos, políticos, locais e internacionais , abrindo as páginas à colaboração de não libertários. O anarquismo continua a ter lugar, mas visando agora menos o  proselitismo do que a investigação e o estudo. Com este novo quadro a revista criou as condições para o salto qualitativo que deu em Outubro de 1983 (n.º 31-32), diversificando as colaborações, alargando o número de assinantes, subindo a tiragem, apurando a apresentação, penetrando no circuito livreiro. O texto em causa manteve-se até ao número duplo de Outubro de 1983, onde ainda surge sem qualquer alteração.

No seguinte (32-33), em Abril de 1984, o parágrafo de abertura muda, atenuando aqui e ali dicotomias, mas sem perder a vontade de intervir, propondo  outras lógicas económicas e políticas que tragam o sinal de uma cultura e de valores libertários ; o restante – colaboração, temas, questões editoriais – não sofre mexida. O mesmo parágrafo terá novas alterações, embora menos de significado que de forma, no Outono de 1986, quando da troca de tipografia. Desta vez (n.º 42-43) haverá também mexidas nos pontos da “plataforma”, assumindo-se pela primeira vez o   promover formas de criação estética, terreno em que os números anteriores muito se haviam empenhado.

(Continua)

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