EDITORIAL – É PRECISO QUE TODOS OS RIOS DESAGUEM NA MESMA FOZ

logo editorialSabemos a força que as redes sociais têm na mobilização de pessoas, juntando-as com um determinado objectivo. Neste momento propaga-se “Todos os rios vão dar ao Carmo”, pretendendo que “rios de gente que quer estar na rua neste dia vão desaguar no Largo do Carmo” na noite de 24 de Abril, com a pretensão de “viver e reclamar o espaço público”. Em paralelo, as comemorações mais “oficiais” pressupõem discursos feitos por quem do 25 de Abril só teve os benefícios de encher as contas bancárias. Ou música e fogo de artifício…

Por parte da Associação 25 de Abril, algo acontecerá, não estando ainda iniciado. O seu presidente, Vasco Lourenço, afirmou ontem ao jornal I, que “no 25 de Abril não falhou nada, pois conseguiu-se a paz, com a resolução do problema colonial, a liberdade, a democracia e a justiça social. A aproximação entre os mais ricos e os mais pobres começou-se a fazer. Ganhou-se imenso na educação, na saúde, na segurança social. O que falhou foi organização dos portugueses, principalmente os partidos políticos”. Referiu ainda que “é preciso haver uma alteração a esta situação e que seja conseguida através dos métodos democráticos. A convicção que eu tenho é que o povo aguenta, aguenta, até rebentar. E nós quando rebentamos não somos nada meigos.”

Sim, temos razão para festejar. O que se vivia há 40 anos, antes dos “rapazes dos tanques” entrarem em Lisboa no dia 24 de Abril é difícil de conceber por quem não viveu essa época, com a sua prática constante de opressão. Os “cortes” e “cortes” em tudo o que quem manda acha que pode cortar – salários, pensões, verbas para a educação, para a saúde – já fazem parte do nosso dia a dia. E o perigo é que a opressão é tanto mais eficaz quando acaba por se confundir com o natural…

Passaram 40 anos. Quem tem consciência da forma como antes se vivia considera que não podemos deixar morrer a memória. E, para quem nesse tempo não viveu, temos que dar memória, dar o testemunho e alertar para o caminho descendente em que vamos caminhando. Rios de gente a comemorar não chega. Tem que haver rios de gente a lutar. E a desaguar na mesma foz.

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