EDITORIAL – Sondagens e opiniões

Imagem2“As sondagens valem o que valem” – é a frase consagrada sobre os inquéritos à opinião pública. Frase usada sobretudo por aqueles a quem uma determinada consulta deste tipo é desfavorável. Na nossa maneira de as ver, sendo barómetros mais ou menos credíveis do que pensam as maiorias, não constituem dados consistentes de avaliação, pois sabe-se como a opinião pública é induzida pelo marketing político. As próprias sondagens, tendem a chegar a resultados que levam a água ao moinho de quem as encomenda. Porém, valendo o que valem, em todo o caso proporcionam dados que, não podendo e não devendo  ser assumidos como realidades incontestáveis, merecem alguma atenção.

Uma sondagem levada a cabo pelo Instituto de Ciências Sociais (ICS) da Universidade de Lisboa, foi ontem apresentada no âmbito da conferência 25 de Abril, 40 anos, patrocinada pelo Expresso. É um trabalho que resulta de 1254 entrevistas pessoais a indivíduos com mais de 15 anos, realizadas em Janeiro último. Na memória colectiva, a fazer fé nos resultados, desvaneceu-se a convicção de que o processo revolucionário em curso conduzia o país para o comunismo, pois apenas 5% dos inquiridos foi dessa opinião. 55% consideram que o 25 de Abril teve como objectivo democratizar e descolonizar e: mais de 60% consideram que as divisões pós-25 de Abril não têm importância. Para 58%, o 25 de Abril é encarado como facto histórico positivo, enquanto só 12 em cada 100 pensam exactamente o contrário, ou seja, que foi mais prejudicial que benéfico, havendo portanto cerca de 30% sem opinião formada. Outro dado é o de que a imagem positiva da Revolução aumenta na medida em que o grau de escolaridade sobe.

O fosso ideológico entre esquerda e direita, motor da agitação social que caracterizou o PREC, parece ter-se diluído, consubstanciando uma imagem positiva sobre a Revolução que pôs termo à ditadura.

As sondagens valem o que valem.

Esta, tendo o aspecto favorável de nos afirmar que os portugueses construíram no imaginário colectivo uma ideia positiva sobre a Revolução de Abril, tem também uma face negativa – a data foi promovida a «facto histórico» e posta na prateleira da estante onde já estavam arrumados a Batalha de São Mamede, a gesta dos Descobrimentos, as Invasões Francesas… Uma parte dos portugueses pensamos que o 25 de   Abril é um processo em marcha, um processo por cumprir, uma data em aberto… Mas as nossas opiniões valem o que valem.

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