CONTOS & CRÓNICAS – “Do cimo da ameixieira” – por Eva Cruz

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O sol abrasava. Nem a água corrente da mina cantando da bica do tanque, nem a vertente de rocha da água do poço davam algum alívio de frescura.

Os abrunhos pretos já tinham ido, ou comidos pelos melros ou caídos de estelo no chão.

É uma esteira debaixo da ameixoeira.

As ameixas brancas luziam de amarelinhas. A ameixoeira parece um andor de tão carregada.

As pegas andavam por lá a rondar e em cada bicada levavam metade da ameixa. As pretas rejeitaram, de tão pequeninas este ano que pareciam bagos de uva. Para os melros serviam.

Pelo fim da tarde o ar refrescou. Atrevi-me a ir buscar a escada de pau, trepei à árvore, sentei-me num galho e tirei a pele a umas poucas que de tão suculentas e doces me souberam a mel.

Do cimo da árvore vi a aldeia de alto a baixo. Igual aos tempos em que eu trepava às árvores. Apenas algumas casas velhas reconstruídas ou pintadas de fresco. Os caminhos eram os mesmos, os lameiros, os campos, as leiras marcadas pelos mesmos combros, o milho a crescer com bandeiras e as espigas com barbas. Faltava o verde tenro das ramadas. Aqui e além esteios de pedra ao alto, suporte de algumas já desaparecidas, e outros ostentando ainda restos de galhos cheios de cachos verdes a alimentar a saudade de uma paisagem que os meus olhos em cima da ameixieira teimavam manter viva na memória.

A capela lá estava imperturbável. Vista dali desenhava os três bicos na serra negra ao fundo, e o toque do sino repenicava nos meus ouvidos. Repicava a festa ou a baptizado. Nunca tocara a finados, tarefa que competia à Igreja mais ao longe. A única melancolia que lhe conheci foi a das Trindades a anunciar o fim do dia. O lavrador parava de cavar, tirava o chapéu, pendurava-o no cabo da enxada e rezava as Avé-Marias. E assim picava o ponto.

O sino já não tem o mesmo toque!

Pois não, disse o Carlitosque tocava o sino. Agora é automático, ou só toca um badalo.

Que pena, não há sino que tenha som tão límpido e alegre como aquele!

Deixe lá que quando quiser eu vou lá tocar o sino só para si.

Do cimo da ameixoeira ouvi o som fresco e repenicado dos três badalos.

Desci da minha infância com uma cesta cheia de ameixas amarelinhas da cor do sol.

À noite a serra deu à luz a lua cheia.

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