Quase sete meses de separação, e transar com outro homem nem passava pela sua cabeça.
Ainda esperava o ex-marido ajoelhado à porta, reconhecendo que ela tinha razão, a amante era sim uma piranha.
Enquanto isso, tentava se distrair no consultório, tratando cáries, canais, moldando dentaduras. Em casa, procurava poeira nos móveis, arrumava, rearrumava armários e gavetas, arbitrava horários e tarefas da faxineira, das duas filhas, lamuriava horas ao telefone.
Tempo de tolerância esgotado, as amigas a enchiam de cartõezinhos sugestivos, oferecendo de “Psicóloga & Taróloga” a “Moreno disposto a tudo”. As meninas cochichavam entre risinhos a cada discussão até que uma delas, já não se lembrava mais quem, soltou o primeiro “pô, mãe, você precisa arrumar um namorado”.
Ela não respondeu. Não saberia explicar vinte e quatro anos de casamento para meninas de dezesseis e treze. Ou o tamanho da decepção. Poderia dizer muitas palavras. Mas não fazê-las sentir.
Seu silêncio, aliado à fixação das adolescentes por sexo, obrigou-a a escutar a frase várias e várias vezes. Até, um dia, a ficha cair.
Não, não estava pronta para outro homem. Mas podia recomeçar aos poucos. Nessa mesma noite tateou-se devagar, procurando o desejo em curvas remotas do corpo. Encontrou lembranças do ex-marido e um acesso de choro igual ao da tarde em que ele foi embora. Irritou-se por tê-lo ainda tão entranhado. Mais por sabê-lo metido com a loira rampeira. Mais e mais por pensá-los há meses em estrepolias na cama.
As meninas estavam certas, era óbvio. Procuraria sim, um namorado. Não já. Antes, precisava arrancar-se do ex. E reencontrar o desejo.
Remexeu a bolsa em busca dos cartões. Dispensou igrejas, esoterismos e homens em carne e osso. Restaram dois. Ela optou pelo lilás. Conveniências eróticas. Uma curiosidade, na pior das hipóteses. Não tinha muita convicção de estar preparada para aquilo. Mas era preciso fazer alguma coisa.
Estacionou o carro a duas quadras de distância. Ao contrário da manhã enevoada e fria de sábado, ela estava, senão alegre, bem-humorada como havia muito não. A simples decisão de acomodar o conselho das filhas às suas necessidades parecia afrouxar-lhe um nó em algum lugar entre a cabeça, o coração e o sexo.
Passeou, ar blasée, pelas vitrines de Ipanema, até a porta lateral do prédio modernoso. Dois lances escada acima, viu-se num salão repleto de lingeries sensuais, preto e vermelho salientes no branco e vidro da decoração. Luzes indiretas davam um clima relaxante ao lugar. Ao menos foi assim que ela sentiu, embora o sangue corresse depressa demais e as bochechas denunciassem, nem precisava se ver no espelho, um embaraço tão incontrolável quanto despropositado.
A moça detrás do balcão abriu sorriso. Junto com o bom-dia, tudo bem? estendeu-lhe uma caixa cheia de pequenos falos de chocolate. Ela colocou um deles na boca e riu. Em segundos eram amigas de infância.
Começaram pelas roupas. De fantasias a calcinhas comestíveis. Para usar a dois. E ela, no momento, era uma só. Mas antes que tivesse o impulso de contar a saga da mulher traída, viu-se guiada, como cega, à saleta contígua, penumbrenta, paredes lilases circuladas por prateleiras de vidro.
Logo na entrada, enfileirados, exibiam-se eretos quase vinte pênis, alguns bastante realísticos, descontados fios e controles remotos. Cenário de filme C. Tinham formato de pênis, textura imitando pele, consistência semelhante e até escroto. Mas nenhum homem depois. Ela já não achava o pênis humano um primor de estética. E assim, separados do conjunto, a feiúra indecente exposta, eram simplesmente medonhos. Levaria sustos enormes ao dar com um desses no armário.
Não havia metonímia possível. Resolveu então que, para ser falso, preferia os falsos de todo. Perguntou pelos vibradores. A amiga – só agora reparava – um tipo comum mas que parecia ler sua mente, já a girava, com um leve toque no ombro, para a prateleira oposta.
Um grupo de mulheres, bastante grande a se julgar pelo burburinho, entrou no salão. Ela ficou sozinha.
Em meio a caixinhas e pacotinhos de conteúdo misterioso, outra dezena de falos, materiais, aparências e cores variadas. Lindinhos, delicados, inofensivos. Apalpou alguns, escolheu o silicone. Indecisa entre roxo, azul, laranja, quis o verde. Não. Já era estranha a idéia de transar com um vibrador. Imaginá-lo um duende seria demais. Terminou no cor-de-rosa. Com um pequeno coelho orelhudo na base. “Para estimular o clitóris”, antecipou-se a vendedora, onipresente.
As brasas emergindo novamente no rosto, pegou a sacola de plástico preto e saiu, o dia definitivamente claro e frio.
Ao chegar, telefonou para as filhas. Confirmou-as longe de casa pelas horas seguintes.
Mesmo assim, trancou-se no quarto depois de tirar a pilha do relógio da cozinha.
Tomou uma ducha, voltou nua, para a cama.
Por alguns minutos, segurou entre as mãos o objeto animado e ronronante. Um estremecimento suave dissipava-se braços acima. Ela se fez penetrar. Mas fora um agradável massagear na vagina, não sentiu nada. Nem vontade de sentir. Desligou o trambolho, enterrou-o no fundo da gaveta das calcinhas, vestiu um moletom macio e quente.
Pensamento martelando o desinteresse do corpo, tentou dormir por mais de uma hora.
Andou pela casa, evitando olhar a superfície dos móveis. E o telefone. Sentou-se, um livro nas mãos, ao ouvir as risadas das meninas no corredor. Elas entraram, puxando pela cintura seus homenzinhos minados de espinhas. Informaram o programa para o fim de semana, o show de rock na praia, a noite na casa do pai. Ela não estrilou como de costume, aconselhou agasalhos e cuidados. Em coro, as duas perguntaram se estava tudo bem, enquanto distribuíam coca-cola e pizza geladas na cozinha.
Passado o pé-de-vento adolescente, cedeu à louça suja na pia. Iniciou uma nova arrumação no armário sobre a bancada. Em meio a copos e xícaras, reencontrou a garrafinha e o cálice pequeno, restos da cesta eclética de flores, amostras de vinho e chocolate, presente do dia das mães.
Não tinha o hábito de beber sozinha, mas era até exagero chamar aquela quantidade de porto de bebida.
Vai ver era só do que precisava para relaxar.
Encheu o cálice, jogou a garrafinha no lixo.
Sentou-se na poltrona da varanda, o sol se pondo atrás das montanhas. Olhou-o através do topázio fluido no cálice. Bebeu devagar, a cabeça vazia, acariciando os dedos na borda fina do vidro. Há quanto tempo não tinha um motivo, prosaico que fosse, de delícia.
Quando a noite sem lua escureceu todo o céu, ela se levantou. Levou o cálice para a
cozinha. Colocou-o cuidadosamente dentro da pia.
Acendeu uma vela perfumada no quarto, a alfazema impregnou o ar. Trocou o moletom por uma camisola longa em seda, um matiz acima do vinho.
Lembrou-se do livro sem graça, largado na sala. Do brinquedo novo e inútil, entre as calcinhas. Poderia se aventurar a um deles novamente. O vibrador estava mais perto. Abriu a gaveta e o encontrou pelo tato. Enfiou-se sob as cobertas.
Pensou que talvez não fosse esse o jeito. Talvez não fosse essa a hora. Deixou-o tremelicar sobre o ventre.
Acabou por dar-lhe mais uma chance. Deslizou-o devagar pela vagina. Ajudou emmovimentos suaves, orientou as orelhas.
O gozo atravessou seu corpo, antes mesmo que ela previsse.
Nada maravilhoso. Um orgasmo dos bem pequenos. Muito mais a certeza de poder recuperá-los.
Espreguiçou-se longamente, escondeu o coelho sob o travesseiro. O mundo voltaria ao prumo, as pessoas ao redor exultariam.
Ela não ligava a mínima. Vibrava, agora, de uma certa impaciência, uma vontade de acelerar os dias, os ponteiros do relógio.
Que, aliás, ia precisar de pilha nova.

