FRATERNIZAR – QUEM SÃO OS ASSASSINOS? – por Mário de Oliveira

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Caxinas e os pescadores

 

 O mar que dia e noite beija Caxinas e o seu povo, como beija todas as localidades e respectivas populações que o têm por vizinho, é um amigo que está aí para fazer viver, e não um inimigo que ataca e mata os pescadores. Dá-se, inteiro, a quem se lhe dá, inteiro, também. Caxinas, com o seu crescente número de pescadores assassinados – assassinados, sim, não apenas mortos ou falecidos – pode chegar a cair na tentação de pensar que é o mar que lhe mata aqueles dos seus filhos que se dedicam à faina da pesca, em Portugal, na Galiza e, porventura, noutras zonas do mundo. Mas é apenas uma tentação. Grave seria, sobretudo politicamente, se Caxinas começasse a pensar que é o mar, o assassino dos seus filhos pescadores. O mar é útero de vida, não de morte. Nem mesmo os cadáveres, ele quer nas suas fecundas águas. E expulsa-os para terra.

 A verdade, porém, é que, cada ano que passa, Caxinas vê aumentar o número de pescadores assassinados no mar. Não pelo mar, mas no mar. E importa que Caxinas se interrogue e, com Caxinas, todo o país humano que somos – Quem é que está aí determinado a matar, assassinar, os pescadores desta zona costeira? Porque onde há gente assassinada, há assassinos. Isto deveriam ver e perguntar, os jornalistas destacados para fazer a cobertura dos factos. Infelizmente, os jornalistas praticam cada vez mais o vício de ocultar os assassinos nas notícias e reportagens que dão ao país. Parecem deliciar-se sadicamente com tudo o que sejam vítimas e suas lágrimas. Falam simplesmente de mortos, como se não houvesse responsáveis, nestes mortos antes de tempo, e como se tudo não passasse de uma mera fatalidade. São jornalistas que desconhecem as perguntas todas que sempre havemos de fazer, perante acontecimentos desta gravidade. Porque assassinatos individuais ou de grupo, sejam na estrada ou no mar, não podem ser noticiados como simples “faits divers”. De modo algum. Perante gente assassinada, a primeira grande pergunta dos jornalistas que se prezam, é, Quem são os assassinos destas mulheres, destes homens, no caso, destes pescadores de Caxinas?

 Quando, porém, os jornalistas destacados para cobrir a tragédia, não o são até ao fim, e ficam-se pelo luto e pelas lágrimas, pelas estatísticas e pelas opiniões dos vizinhos da tragédia, cabe à Humanidade mais consciente levantar-se e perguntar, Quem são os assassinos de tantos pescadores de Caxinas? A pergunta pode não ter resposta imediata, mas o simples facto de ser formulada em voz alta, quando os jornalistas pés-de-microfone, se dispõem a ouvir gente de Caxinas, e, desse modo, ter de aparecer incluída na notícia, é, só por si, suficientemente perturbadora e politicamente subversiva. Cabe-nos, como seres humanos, ser politicamente subversivos, de resto, a única maneira de sermos politicamente correctos neste tipo de mundo, organizado pelo Poder que é, de sua natureza, mentiroso e assassino.

Nunca mais posso esquecer que, nos meus tempos de pároco de Macieira da Lixa, por sinal ainda recém-chegado à paróquia, tive de presidir ao funeral de um homem da freguesia, Armando Teixeira, de seu nome, morto aos 40 anos de idade, vítima de uma cirrose, contraída nas Minas próximas do Seixoso. O trabalho de alto risco, na extracção do minério, sem o mínimo de condições de segurança e de antídotos contra os perigos mais que evidentes, a isso o condenou. E, na celebração que fui chamado a presidir, quando chegou a hora de proclamar a palavra que haveria de dar sentido humano a toda àquela tragédia que deixava uma viúva na força da vida, com um rancho de filhos crianças para criar, decidi abrir a homilia com uma pergunta que ainda hoje anda por aqui, onde vivo, a ecoar, Quem matou Armando Teixeira?!

Nem queiram saber o frio gelado que atravessou a espinha de todas, todos nós, e muitos éramos, por sinal. Nem a presença lacrimosa dos administradores da extinta empresa me inibiu de formular a pergunta. E ela ecoou, como espada de dois gumes, não para matar, mas para destruir a máscara que o Poder, mentiroso e assassino sempre coloca sobre a realidade. A pergunta não trouxe de volta Armando Teixeira, mas desencadeou práticas de justiça e de partilha que ajudaram a respectiva viúva a criar as suas filhas, os seus filhos.

Mais tarde, já comigo preso político em Caxias, escrevi um Poema, onde se denuncia, “Às ordens de gente a pensar em minério / minavas a terra à procura de pão / minério arrancaste e cresceu um império / porém para ti só cresceu solidão”. E ainda: “Riquezas que crescem com homens que morrem / são bem a desgraça da humanidade / criando uma terra com homens que sobem / não mais haverá solidão na cidade” (cf.link: https://www.youtube.com/watch?v=VO60sefLBis

O mesmo sucederia em Caxinas, se o pároco local, em lugar de somar os funerais que já teve de fazer de pescadores mortos, reiteradamente perguntasse, Quem matou, está a matar, todos estes pescadores que se fazem ao mar, em busca de pão? Poderia ver o seu lugar de pároco em risco, mas a Humanidade ficar-lhe-ia para sempre reconhecida, por ter a audácia de ser integralmente Humano, e não apenas um funcionário mais deste tipo de mundo, o do Poder.

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