Selecção e tradução por Júlio Marques Mota
A Alemanha criou uma “vantagem desleal” com os seus baixos salários
AFP – Forum Démocratique – 2 de Março de 2014
Texto enviado por Philipe Murer, do Forum Démocratique
O secretário de Estado alemão para os assuntos europeus Michael Roth aquando duma entrevista à AFP, em Berlim, a 20 de Fevereiro de 2014 Johannes Eisele AFP
A Alemanha ganhou uma vantagem competitiva “desleal” para com os seus parceiros com o crescimento do volume de trabalhadores de baixos salários, reconheceu o secretário de Estado alemão para os Assuntos Europeus, Michael Roth, prometendo a sua correcção, numa entrevista à AFP.
O ministro Roth, um social-democrata como o chefe da diplomacia alemã, Frank-Walter Steinmeier, era questionado sobre os excedentes comerciais recordes registados pela Alemanha (quase 200 mil milhões de euros em 2013) que são agora matéria de um procedimento de análise em Bruxelas.
“Os desequilíbrios apareceram na União europeia e temos o dever de os corrigir. Não é não somente o dever dos países em défice mas é também o da Alemanha”, declarou na quinta-feira aquando de um encontro com jornalistas da AFP à Berlim.
Estas intenções colidem com as dos conservadores e com a própria chanceler Angela Merkel, que sempre contestou que a Alemanha tenha um problema de excedente comercial, apesar do limiar limite de 6% do PIB fixado pela União europeia e sistematicamente excedido por Berlim desde 2007.
“Com o crescimento do volume de trabalhadores com baixos salários e com o emprego precário a crescer na Alemanha, dotamos-nos de uma vantagem (competitiva) desleal para com os nossos parceiros. Esta realidade deverá ser corrigida progressivamente”, afirmou o ministro Roth. Este considera que o novo governo de coligação associando os conservadores aos sociais-democratas “já tinha lançado um sinal claramente” com a introdução de um salário mínimo universal de 8,50 euros da hora que deve ser posto em prática o mais tardar daqui até 2017.
Os empregos precários e com baixos salários multiplicaram-se na Alemanha desde os anos 2000 sob o efeito das reformas do mercado do trabalho do antigo chanceler Gerhard Schröder, contribuindo para a queda da taxa de desemprego alemão doravante uma dos mais fracas da UE.
Estas reformas também doparam a competitividade do país já de si muito forte, fazendo explodir o excedente comercial. A Alemanha regularmente é criticada pela sua dependência para com as exportações e pela sua fraqueza quanto á sua procura interna, que penalizam as exportações dos seus parceiros europeus como a França, a Itália ou o Reino Unido.
A redução do excedente comercial “é um assunto sensível na Alemanha”, reconheceu o ministro. “Frequentemente tem sido dito mas sem razão que se tratava de reduzir as nossas exportações. Não é de forma alguma isso que está em questão. Trata-se, isso sim, de aumentar a procura interna”.
Para além do salário mínimo, o contrato de coligação comporta “ outras medidas concretas” para esse efeito. O ministro Roth evocou nomeadamente: “o enquadramento dos contratos de duração determinada, os temporários, a limitação dos estágios, os investimentos nas infra-estruturas”.
Interrogado sobre a mudança de tom do novo governo alemão, em relação à coligação precedente com os liberais, afirmou: “os social-democratas estão a fazer o que acham que devem fazer ”. E sobre os desacordos eventuais com os conservadores sobre estas questões económicas e sociais: “o que acabo de expor não são somente respostas social-democratas. São as respostas da grande coligação. Isto dá-me confiança para pensar que vão ser aplicadas.”.
Sobre as relações entre a Alemanha e o governo socialista francês, Roth considerou que reinava “uma atmosfera positiva”. “Politicamente, entendemo-nos melhor do que antes.” Isto está naturalmente também relacionado com o facto de que os sociais-democratas agora são uma componente importante do governo alemão”, disse ele.

