No dia 26 de Abril último, o jornal i publicou uma entrevista com João Salgueiro, que foi subsecretário de estado do planeamento, com Marcelo Caetano, e ministro de estado, do plano e das finanças com Pinto Balsemão. A entrevista, conduzida por Margarida Bom de Sousa, é sem dúvida de bastante interesse. João Salgueiro é, claramente, uma pessoa inteligente e informada, pelo que as suas respostas não serão afectadas por desconhecimento ou qualquer impossibilidade de fazer uma avaliação melhor da realidade. Na sua entrevista, deixa entender ser sua opinião que, durante o chamado PREC, houve o confronto de dois modelos opostos: um, seria o que chama o do planeamento soviético, o outro, o que diz ser o da Europa Ocidental, com economia de mercado e diferentes sistemas de solidariedade social. E mais adiante, quando responde a uma pergunta sobre se Angola e Moçambique quereriam ser independentes, mas que não puderam escolher, e que em 74, em Portugal estávamos divididos entre “a aproximação à Comunidade Europeia e a inspiração soviética”. E afirma que o MFA acreditava que, em eleições, o modelo soviético iria ganhar, tendo as primeiras eleições para a Constituinte sido um golpe nessas expectativas.
No mesmo dia, sábado à noite, 26 de Abril último, na SIC Notícias, o Eixo do Mal deu um programa especial, com convidados. Um deles foi o padre António Vaz Pinto, que foi alto comissário para a imigração e minorias étnicas entre 2002 e 2005 e é o actual director da revista Brotéria. Falou sobre o 25 de Abril, e o que fazia na altura e a certa altura declarou não perceber como é que o partido comunista tinha deixado o MFA fazer eleições.
São opiniões de dois distintos e respeitáveis elementos da direita portuguesa. A opinião que ambos proferem, sobre as influências do Partido Comunista sobre o MFA é obviamente exagerada, como aliás o exame atento do decurso dos acontecimentos, antes e depois das eleições para a Constituinte, ou antes e depois do 11 de Março, o comprova. Sobre o MFA recaíram muitas influências, mas bem ou mal, os elementos que o integravam foram decidindo pelas suas cabeças, praticamente até ao 25 de Novembro.
A direita portuguesa, entretanto, continua a alimentar o papão do comunismo, como peça estrutural da sua ideologia, e como tal procura explicar a história com ele. Do mesmo modo que, ao nível internacional, se parece querer relançar o velho conflito leste-oeste. Era bom que nos interrogássemos sobre o significado desta recuperação de velhos chavões. Não será por falta de imaginação que persistem, tão próximo das eleições europeias.
Obrigada pela partilha -Maria