Jorge considera-se um racionalista, mas gosta de ir atrás da intuição, seguir as razões que a razão desconhece, entrar nos labirintos do acaso e encontrar a saída, seguindo ventos e estrelas, ignorando mapas e bússolas. A intuição é o seu fio de Ariadne.
Há muitos anos esteve preso. Não interessa porquê. Mas sendo jornalista, pode ter sido por abuso de liberdade de imprensa. Foi julgado e condenado a um ano de prisão efectiva. Esteve isolado numa cela e proibido de receber livros. O presídio situava-se na periferia de uma grande área metropolitana. Não interessa qual. Ao longe, na linha do horizonte, o mar rematava uma paisagem de quilómetros de casario. As colmeias que cercam as cidades.
Habituou-se depressa à rotina carcerária. Não podendo ler livros, lia silêncios, sombras, gritos, pios lancinantes de gaivotas… A leitura preferida era a da paisagem que, através das grades duplas, lhe era permitido ver. E o tema de leitura preferido estava escassas centenas de metros abaixo do presídio – um bairro de lata. Observava a vida no bairro, os seus habitantes, os seus movimentos e rotinas. Ao longo dos dias, semanas, meses, foi imaginando personalidades, construindo episódios. O vento traz-lhe por vezes gargalhadas, gritos. Mas, a partir do que vê e ouve, tem de construir uma realidade. Segue a intuição. As personagens principais vão sendo modeladas.
No centro do bairro, há uma taberna. Ao taberneiro gordo, atribui uma boçalidade cómica, brejeira – chama-lhe Geraldo.
Um velhote simpático sempre rodeado de crianças. Sai cedo do bairro e regressa tarde com ar fatigado. Imagina-o um bondoso mendigo e chama-lhe Josué,
Uma rapariga jovem bonita, sempre com ar limpo e cuidado. Sai cedo e volta ao fim do dia. Imagina-a caixeira numa loja de modas. Chama-lhe Cláudia,
Um rapaz de ar desmazelado, levanta-se tarde, grita com as crianças, pontapeia os cães. Imagina-o um tóxico-dependente, um chulo, ou ambas as coisas. Chama-lhe Adolfo.
Adolfo vive na mesma barraca de Carolina, nome que deu a uma mulher roliça espalhafatosa, de meia-idade, muito pintada. Não sabe se é a mãe ou a amante de Adolfo. Atribui-lhe o mais antigo mester do mundo…
E assim por diante até chegar a Jean-Paul Sartre, um rafeiro acastanhado e que vem até uns metros das grades do presídio, sabendo quando estão de serviço guardas que o deixem passar, Fica junto da parede do presídio e espera que os presos lhe atirem restos de comida. Por vezes, solta um latido, um uivo. Tem um olho torto, resultado de alguma briga. Daí o nome que Jorge lhe atribui.
Numa tarde de Verão, apanha um susto. Cláudia junta-se a Carolina e a Adolfo e confraternizam numa mesa que Geraldo instalou no terreiro. Terá a prostituta induzido a caixeira a um namoro com o chulo?
Jean-Paul Sartre está junto deles. Parece partilhar a preocupação de Jorge.
*
Passados meses após ser posto em liberdade, Jorge visita o bairro. Não reconhece ninguém. Vai até à taberna de Geraldo. Surpreende-o o ar limpo e arrumado do interior. Retratos de futebolistas famosos, cachecóis de clubes desportivos e um televisor. Geraldo vem atendê-lo. Nada tem de boçal. Voz grave e palavras bem pronunciadas. Jorge pede uma cerveja e quando o homem a vem servir, mostra-lhe o cartão do jornal e pede-lhe que se sente e que beba o que quiser, Alberto, chama-se, declina o convite para beber, mas senta-se e em tom polido, responde ao que Jorge lhe vai perguntando.
A verdade deixa Jorge atordoado.
Carolina não é uma prostituta – é a irmã Joana, freira de uma ordem laica, colocada no bairro a fazer trabalho voluntário de apoio à inserção social. Adolfo não é um chulo nem um tóxico-dependente, mas sim um agente da Judiciária que investigou a rede de tráfico de droga que se suspeitava existir no bairro.
Cláudia, essa sim, é uma jovem prostituta e subordinada do senhor Ferreira, o velho Josué, um barão da droga com mandados de captura em vários países e que encontrou no bairro um refúgio relativamente seguro, O inspector Martins, o vilão Adolfo da novela de Jorge, com a ajuda da irmã Joana e, acrescentou Alberto com ar modesto, «com a minha colaboração», desmantelou a rede e estão todos ali – e apontou o edifício da prisão.
Alberto não deixou Jorge pagar a cerveja. Quando se despedia do taberneiro, apareceu Jean-Paul Sartre abanando a cauda. Jorge afagou-o e perguntou de quem era o cão. «De ninguém», respondeu Alberto e vendo o interesse de Jorge, acrescentou – «Se ele quiser ir, pode levá-lo».
Jean-Paul parece ter percebido. Foi atrás de Jorge até ao carro e quando este abriu a porta, após breve hesitação, saltou para o banco ao lado do condutor.
Passaram anos. Muitos anos.
Jorge junto de um computador, tem um cão enovelado a seus pés. É um neto de Jean-Paul Sartre e já está com uma idade avançada, mais de dez anos. Jorge lê uma história que construiu seguindo a intuição. Colabora num blogue e imaginou identidades, ligações, amores e ódios entre bloguistas e visitantes de redes sociais. A sua intuição ditou-lhe pormenores rocambolescos e personalidades de grande recorte psicológico. Lê directamente do monitor. Chega ao fim e olha para o cão que erguera o focinho para escutar o dono.